Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.

Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.

Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um avestruz.

Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes, estacou surprehendida.

De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús, soprando em longos flautins de ouro.

A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce, porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças, que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.

Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.

Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas de filó batiam tremulas.

Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um paiz de sonho.

Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em flechas de sol.