—Acho que não.
—Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de olho?
—P'ra Nina? não, senhora.
—Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que estão reformando tudo! é verdade?
Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço, as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o vestibulo...
D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um sorriso torto:
—Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.
Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor. Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...
Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!
D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.