Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.

Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.

D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir tão alto, tão alto!

—O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa; percebem?

D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth murmurou:

—Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!

Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo corredor.

D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim, por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.

Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota da negrinha não ouvira o seu conselho?

Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era bom, estava tudo sempre muito bem.