—A quem o dizes...

Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava.

Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga?

Abriu a janella e encostou-se.

De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro.

No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma cesta de fructas e frescos pés de alface.

A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante.

No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo.

Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos.

Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter sabido crear para os seus uma felicidade perfeita.