—Parece-me que sim ... coitado...

Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:

—Quer que eu mande tocar a sineta?

—É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui?

Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que?

Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por caduquice; miolo molle.—O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao Mario!—resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se fizesse um commentario ao artigo acabado de ler.

Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario, de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada, muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde relampejavam fulgores frios.

Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só, offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de sentimentos dava-lhe desejos máos.

A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com as delicias do amor?

Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga, apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia, não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada...