Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.

Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo, que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia, tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.

A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais côr de cidra.

Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia. O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.

O pae chamou-a:

—Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me incommodando. O paletot está sem botões.

Ella não respondeu, foi dentro e voltou:

—Estão aqui outras meias.

—Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...

Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou: