Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto naquella claridade muda.
Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva...
Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros saltavam lampejos luminosos que animavam a sala.
Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra. Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma gaveta, que fechou á chave.
Estava alli dentro o descanço, a eterna paz.
Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo...
No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu desgosto, quando a afilhada o interrompeu:
—Bons dias, titio!
—Adeus, Nina.
—Estava gostando de vêr os manacás?