Com um avental atado sobre as rendas do peignoir, Camilla executava, com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia.
Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel nos jantares de anniversario das Gomes.
A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da Judith confundia os a a com os o o, quando a Nina appareceu dizendo:
—Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a senhora.
—A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?... perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!
—Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia...
—Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, lavava os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.
—Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga. Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu logar, Nina.
Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho.
Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão grave e desusado que ella logo o extranhou.