Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio.
Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida. O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.
Em baixo, o armazem parecia outro. Seu Joaquim permanecia sentado ao pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.
Do seu ponto, seu Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres, agora a mais afortunada da rua.
Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno.
Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o chapéo, entrou outra vez no escriptorio.
O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O guarda-livros levantou-se e disse:
—Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte. Vou tentar outra vida...
—Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz! abraçaram-se.
Motta approximou-se.