Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe valia de nada.
A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á lucta tremenda de recomeçar.
Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa melhor do que o dinheiro—a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua lembrança.
«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla! Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas. Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus filhos. Eu sou um ladrão!»
Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo agonisava com elle.
A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua era uma das precursoras.
No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear.
A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela politica amaldiçoada.
Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do desespero.
Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto, percebesse o volume e os perigos.