—Mamãe não conhece... Jacintha é uma velha paralytica que mora na visinhança da minha discipula. Sempre que passamos por lá nos pede esmola... É tão velhinha que faz pena. Combinámos com a Nina que sempre que sobrasse alguma coisa do jantar fossemos levar a ella. Quando me lembro do que se desperdiçava lá em casa! Por um lado, mais vale a gente ser pobre... Os ricos, não é por mal, mas como não conhecem a necessidade dos outros não consolam ninguem...
—Falla baixo! Bem, meus amores, vão, antes que seja noite.
—Anda depressa, Noca.
—Mamãe, como nós vamos acompanhadas, podemos depois fazer um passeiozinho?
—Sim...
As creanças sahiram com a mulata. Camilla sorriu. A Providencia não a desamparava. Ainda na sua casa havia sobras para dar...
A tarde cahia com lentidão; a viuva, derreada na cadeira de balanço da sala de jantar, olhava pela janella aberta para a grande amendoeira do quintal, cujas folhas côr de ferrugem cahiam espaçadamente, com um rumor timido.
Invadia-a uma grande tristeza, um desejo vago de fugir, de sumir-se na transformação de uma essencia diversa. A sua alma amorosa crescia-lhe dentro do peito na ancia do calor do abraço e do sabor do beijo. Não podia mais, as roupas negras suffocavam-na, lembravam-lhe a todos os instantes aquelle minuto inolvidavel, que se lhe fixara na vida, que se repetia sessenta vezes em todas as horas e de que ella não se libertaria nunca!
Nunca? Quem sabe? a sua carne forte acordava de um longo lethargo com fremitos de mocidade, capaz de todos os prodigios. Se a paixão que ella via arrefecer nos olhos de Gervasio se reaccendesse! Se elle voltasse a amal-a com aquelle amor antigo, todo de extremos... Se elle voltasse!
Na pallidez da tarde moribunda, a grande amendoeira desnudava-se, tranquillamente. Camilla olhava para ella, invejando-lhe a serenidade, quando sentiu passos.