—Querem luz? Como as meninas estão tardando!
Gervasio não respondeu; achou-a importuna. Camilla disse com meiguice:
—É cedo, minha filha...
Ficou depois por muito tempo calada, recolhida na sua alegria. Era como se a tivessem encerrado em uma redoma luminosa e cheia de perfumes, em que houvesse outra atmosphera que lhe alterasse a natureza, isolando-a de tudo o mais. As roupas do lucto não lhe pesavam, semelhavam rendas levissimas; pela primeira vez a imagem do marido no ultimo momento se lhe apagou na memoria... Era já noite quando ella acompanhou Gervasio ao jardinzinho da entrada. Elle sentia-a tremula, numa commoção de virgem, como se aquelle velho amor peccaminoso fosse um amor nascente.
A sua voz, lenta e grave, tinha inflexões timidas, e a brancura da sua carne, tantas vezes beijada por dois homens, parecia-lhe, na sombra, de uma immaterialidade purissima.
—Agora és só minha, só minha! dizia Gervasio, apertando-lhe as mãos com força, quando um homem se approximou do portão e o empurrou. Olharam, com espanto, mas logo Camilla deu um grito: reconhecera o filho e correu para elle.
Mario olhou para o medico com aborrecimento não disfarçado e recuou, dando logar a que elle passasse para a rua, como a despedil-o.
Trocaram um cumprimento rapido e cruzaram-se.
Foi só depois do portão fechado sobre as costas do outro que o Mario se voltou para a mãe com uma expressão que significava—ainda?!
Camilla rompeu em soluços e então o filho abraçou-a docemente, e foi-a levando para dentro. Nina accendeu o gaz, batendo os dentes, num accesso nervoso; depois contemplaram-se todos, em silencio. Foi ainda soluçante, que Milla perguntou afinal: