Aqui, alli e acolá, pretinhas velhas, com um lenço branco amarrado em fórma de touca sobre a carapinha, varriam lepidas com uma vassoura de piassava os grãos de café espalhados no chão. Com o mesmo açodamento peneiravam-n'os logo em uma bacia pequena, de folha, com o fundo crivado a prego. Era o seu negocio, que aquelles dias de abundancia tornavam prospero. Enriqueciam-se com os sobejos.

Assim, em toda a rua só se viam braços a gesticular, pernas a moverem-se, vozes a confundirem-se, chocando nas pragas, rindo com o mesmo triumpho, gemendo com o mesmo esforço, em uma orchestra barulhenta e desharmonica.

A não serem as africanas do café e uma ou outra italiana que se atrevia a sahir de alguma fabrica de saccos com duzias d'elles á cabeça, nenhuma outra mulher pisava aquellas pedras, só afeitas ao peso bruto.

Dominava alli o trabalho viril, a força physica, movida por musculos de aço e peitos decididos a ganhar duramente a vida. E esses corpos de athletas, e essas vozes que soavam alto num estridor de clarins de guerra, davam á velha rua a pulsação que o sangue vivo e moço dá a uma arteria, correndo sempre com vigor e com impeto.

Já de outras ruas descia aquella onda quente, arfante de trabalho, vinha da rua dos Benedictinos e vinha dos armazens da rua Municipal, todos atulhados de café, que esvaziavam em profusão para os trapiches e as Docas, tornando-se logo a encher famintamente.

Em uma ou outra soleira de porta trabalhadores sentavam-se descansando um momento, com os cotovellos fincados nos joelhos erguidos, salivando o sarro dos cigarros, a saborear uma fumaça, olhando com indifferença para aquella multidão que passava aos trancos e barrancos, na ancia da vida, num torvelinho de pó e gritaria.

De vez em quando, grupos de rapazinhos, na maior parte italianos, surgiam nas esquinas e percorriam todo o quarteirão, ás gargalhadas, enchendo os bolsos com o café das africanas velhas, cujos guinchos de protesto se perdiam abafadas pelo ruido complexo da rua.

Dentro dos armazens a mesma lufa-lufa.

No de Francisco Theodoro não havia paragem.

O primeiro caixeiro, seu Joaquim, um homem moreno, picado das bexigas, de olhos fundos e maçãs do rosto salientes, gesticulava em mangas de camisa, apressando os carregadores esbaforidos.