Gervasio beijava-lhe as mãos, supplicando-lhe que lhe perdoasse; fôra por amor de ambos. Porque não continuariam a viver como até então?
Camilla não respondia, e como elle instasse, ella pediu:
—Deixa-me ir embora!
—Tens razão; precisas descançar. Mas não podes ir assim, deixa-me ao menos mandar buscar-te um carro!
Camilla desprendeu-se, já muito impaciente; queria ir sozinha, andar a pé, ao ar livre. Elle consentiu, adivinhando que a perdia para sempre. Talvez fosse melhor assim...
Ella colheu a cauda da saia e sahiu tiritando de frio, por aquella luminosa tarde de verão. Encontrara fechada a porta do futuro; voltava para traz, aturdida, como se sentisse dentro da cabeça um sino doido, badalando furiosamente. Elle era casado! Elle mentira-lhe! Tantos annos de mentira, tantos annos de mentira!
Era já noite quando Camilla entrou no seu jardinzinho da rua de D. Luiza. A casa estava ainda ás escuras, mas Ruth tocava lá dentro um adagio de Mendelssohn. Extenuada, Camilla sentou-se nos degráus de pedra, como uma mendiga á espera da esmola. As luzes dispersas dos lampiões semeavam de pontos de ouro a curva negra do morro; a ultima cigarra adormecia nas flores abertas do flamboyant, e a alma dos seres invisiveis erguia-se na noite, enchendo-a de impenetravel e sagrado mysterio...
Camilla, com o olhar aberto para o velludo macio da sombra, percebia que estava tudo perdido, irremissivelmente. No outro dia escreveria uma carta a Gervasio, com a sua ultima palavra. O adeus definitivo. As lagrimas rolavam-lhe em fio pelo rosto abrasado; estava bem certa de que aquelle era o dia da sua segunda viuvez.
Perdera na primeira o aconchego, as honras da sociedade, a fortuna e um amigo calmo, que não a repudiaria nunca... Na segunda, perdia a illusão no amor, a fé divina na felicidade duradoura, o melhor bem da terra!
Chegara ao fim de tudo, á hora tremenda da expiação. Mas fôra ella, por ventura, uma criminosa?