«Minha varinha de condão, pelo poder que Deus vos deu, fazei...»

Nina, encostada á grade, via Mario afastar-se; e lá em cima, no terraço, ao lado do marido adormecido, Camilla curvou-se para o Dr. Gervasio e beijou-o na bocca.

[III]

Com preguiça de ir visitar as velhas tias do Castello, Camilla mandava ás vezes as filhas pequenas abraçal-as em seu nome, em companhia da Noca. As senhoras Rodrigues moravam ainda na mesma casa, do alto do morro, muito antiga, com janellas de guilhotina e paredes encardidas. D. Itelvina raramente punha os pés na rua, e era tida como a creatura mais sovina do bairro. A outra, D. Joanna, pouco parava alli, sempre voltada para Deus. Era viuva de um colchoeiro rico, morto de anasarcha, de quem soffrera os máos tratos que, na inconsciencia das bebedeiras, elle lhe ministrava.

Viviam as duas, desde creanças, na mesma casa, herança dos paes, conservando os seus habitos de vida mesquinha, amando idéaes diversos: uma concentrando-se, outra expandindo-se, consistindo para uma todo o prazer da vida em aferrolhar, esconder bens que as mãos apalpam, e para a outra só em querer bens do céo, com que a alma sonha.

Nada sorria naquella habitação arida e velha. No quintal, nem um canteiro de flores; uma horta rachitica a um canto, algumas laranjeiras e um coradoiro de grama pisada e sem viço, extendendo-se ao lado de um tanque de cimento, coberto por um telheiro de zinco. Dentro, o mesmo desconforto: salas com poucos moveis e esses antiquissimos, alcovas vazias e uma cozinha de tijolos desgastados pelas pancadas do machado na lenha.

D. Itelvina percebia bem que para conservação d'aquella casa deveria fazer-lhe grandes concertos; mas queria obter da irmã que os fizesse todos por sua conta, o que lhe parecia mais justo.

A irmã é que não olhava para os buracos dos ratos e pouco lhe importava isso, desde que a sua Senhora do Carmo e o Santo Christo do seu oratorio estivessem alumiados, a sua alma em graça, e que ella pudesse fazer todas as semanas as suas confissões aos frades capuchinhos. Esta era, para tudo mais, uma senhora apathica, gorda, de uma brancura anemica, com uns olhos castanhos muito doces e um cabello grisalho, curto, que ella cobria com uma touca preta de folhos encrespados. A saia, redonda e muito franzida, mostrava-lhe os pés largos calçados em duraque, e nas mãos finas e côr de leite tinha, ora o livro de orações, de folhas já denegridas nos angulos, ora um rosario de ambar benzido pelo bispo.

D. Itelvina não parecia crente. Ninguem a vira nunca de joelhos em frente ao oratorio da irmã. Nenhum traço commum lembraria a outrem o parentesco entre ambas. Esta era alta, morena, de nariz forte e labios finos.

A voz de D. Joanna tinha inflexões brandas, de alma tranquilla; a voz de D. Itelvina tinha sibilações desafinadas, rouquejava ou tinia, como se sahisse de orgãos de bronze. Nem as duas sabiam se se amavam.