—É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.
O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.
—Quem procura?
Dr. Gervasio explicou-se.
—Faça o favor de entrar...
A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de cadeira.
O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.
Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.
A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista, depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos homens um interesse mediocre.
Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos. Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande movimento no armazem...