Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.

Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.

—Bonito!

D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma unica dobradiça perfeita.

Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos brutos, entre ratazanas e aguas servidas.

O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito, D. Joanna sahir de uma casa.

Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.

Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e em nickeis.

Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.

Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada. Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce tom de devoção.