—É pena não ter povo. Sentenciou Theodoro.
—Não é pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, serão num dia melhor a gloria do mundo, quando elle, exgotado pela exploração das outras, voltar para ellas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para uma outra raça de grandes ideaes, que ainda ha de vir. Tão formosas promessas não se fazem ao vento...
—Outra raça ... outra raça ... vinda de onde?! nascida de quem?!
—Da nossa, talvez; e das outras. As gerações que definham nos paizes velhos aperfeiçoam-se e revigoram-se nos novos. O futuro do mundo é nosso, e será a coroação das nossas bondades e virtudes, visto que o povo brasileiro é bom.
Francisco Theodoro não concordava em absoluto; não podia perdoar a Republica. Aquella revolução fôra uma revelação. Sentia-se engasgado com o exilio do imperador. Torceu assim a conversa para novo assumpto.
Dr. Gervasio conhecia as ideias politicas de Francisco Theodoro; ouvia-lhe sempre os mesmos commentarios. Estava inteirado; quanto ás do outro, não lhe parecia que devesse lucrar muito em ouvil-as. Voltou-lhe as costas e poz-se a ler as lombadas dos livros da estante:
—Virgilio ... Homero ... Dante ... Camões ... Gonçalves Dias ... Shakspeare ... bravo!
Que especie de homem seria então esse capitão Rino? Leria elle effectivamente aquelles poetas?! O medico abriu ao acaso o primeiro livro ao alcance da mão, e observou logo que elle estava annotado, a lapis, com signaes firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente consciente do seu claro juizo. Era o Cid. Á primeira pagina onde o olhar do Dr. Gervasio cahiu, havia este verso marcado com uma linha gorda:
L'amour n'est qu'un plaisir, l'honneur est un devoir.
Fallava D. Diogo. O medico releu o verso com um sorriso de sarcasmo.