Que maravilha!

Ruth lançou-se á amurada, agitando o lenço. Passava uma barca de Nitheroy, repleta de passageiros, branca, ligeira, com a sua cauda de espumarada. Toda a superficie do mar, paletada de luzes, tremia como a pelle moça a um afago voluptuoso. Ao longe, a Serra dos Orgãos desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardosia. Para os lados da barra havia montes de prata fosca em que o sol, scintillando nas pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta espelhavam-se n'agua, entre montanhas de um verdor intensissimo.

Houve uns instantes de pasmo e de concentração, e foi nesse silencio que o medico percebeu um olhar de Camilla para o capitão do Neptuno.

Aquelle simples movimento bastou para atear no peito do medico o fogaréo da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e revelava-se a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante, sempre tão sua, tão submissa ás arbitrariedades do seu genio desegual de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ninguem, e a justiça era que ella o enganasse e o trahisse, como por elle trahia e enganava o esposo...

Percebia bem que o capitão Rino era mais bello, mais moço, e essas duas qualidades só por si bastavam, a seu vêr, para fazer preferido um homem aos olhos de uma mulher de quarenta annos...

—O senhor hoje está nos seus dias de spleen, doutor? perguntou-lhe de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente.

Elle deu-lhe o braço e explicou-lhe que não; queria estar calado para ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios, se não achava o capitão Rino muito differente do que lhes parecera sempre, em Botafogo.

—Eu já disse isso mesmo a elle, e descobri o motivo; é porque anda sempre de escuro, e hoje está de branco!

—E com uma flor ao peito!

—É verdade.