«...um peccado chama outro peccado, e este outro vem logo acompanhado até crear devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remedio. Miseravelissimo estado que abre as portas de par em par a todo o genero de vicio e apaga toda a memoria do Céo e da Eternidade».

Padre Assumpção fechou o volumesinho de Frei Luiz de Sousa, pôl-o na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro.

Estava á espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva cahia em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de furia. Assumpção confessou:

—Estou com medo que o temporal d'esta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal...

Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. D'ahi a pedaço, já desinteressado do poker e prestando attenção á bulha das aguas, Argemiro propoz que ficassem todos com elle: a casa tinha quartos para hospedes. Nenhum acceitou. Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua ménagère e padre Assumpção affirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o vêr entrar.

A partida prolongou-se até ás onze horas, em que deixaram os baralhos, e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua atravez dos vidros das janellas.

—Chove ainda! E deve estar frio lá fóra! Parece-me que estou em Curitiba!

Padre Assumpção, voltando-se para o dono da casa, disse:

—Amanhã terei de ir á casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?

Nossa Maria era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem baptisára e adorava.