Feliciano esperava impertigado, com um arzinho malicioso na fisionomia experta. A Pedrosa escreveu a lapis num bilhete de visita:

«Dr. Argemiro.—Passando pela sua porta quiz deixar estes pecegos para a sua Gloria. Tinham-me informado que ella estava aqui. Cumprimentos.»

Feliciano recebeu a caixa e o cartão e apressou-se em ir adiante abrir o guardavento e a portinhola do coupé.

No carro a Pedrosa explodiu:

—Que tal o viuvinho, hein?! E o bandido do padre, que ainda hoje affirmou que o hypocrita vive só com a sua saudade! Será o nome d'ella?! Deixa-a estar... vamos a vêr quem vence!...

—Mamãe!

—Mamãe! Mamãe! lá estás tu a balir como uma ovelhinha assustada! Ora o ladrão do Argemiro!... Este Rio de Janeiro está perdido! É por isso que ficam tantas moças solteiras... O ménage! já é com um descôco que falam na sua ménagère!... Se as mães não tomam sentido, ficam-lhes as filhas em casa... havemos de defendêl-as, custe o que custar... Ladrões!

—Mas não pense mais no Argemiro... mamãe...

—Hein?! que idéa, não pense no Argemiro! mas se elle é o marido que te convem! Julgas que é muito facil encontrar um homem que reuna tantos predicados? Só por ter uma ménagère? Desistir de um marido por causa de uma ménagère! Tolinha... isto até prova em seu favor... já não cheira á defunta... Depois, essa especie de mulheres só embaraçam os tolos. Acredita que muitas vezes é a amante quem atira, inconscientemente, um homem para os braços da esposa... Tu... bem! mas por emquanto não te posso dizer mais nada. Já falei demais.

Sinhá olhava para a mãe com olhos de espanto.