Caldas preveniu:

—Olha que essas madamas trazem anzóes nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E tu que és bom peixe! É uma raça abominavel, a das governantes... Verás ámanhã que afluencia de francezas velhas á tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar socegadinho nos braços do Feliciano!

—Que lembrança, por annuncio! repetia o padre. Ainda se não tivesses tua filha...

—Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu logar. Nem quero vêl-a, mas sentir-lhe apenas a influencia na casa. É a minha primeira condição.

—Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse officio mulheres aposentadas, pela força da edade, de outros serviços! Feias mas habilidosas... No fim de algum tempo tu cahirás doente, ella será uma enfermeira carinhosa e a comedia acabará quasi sem se sentir. É o costume. O Assumpção reprova-te. Eu aviso-te.

—Consultaste ao menos tua sogra? perguntou o padre.

—Não. Ella, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.

—Não tires de lá a nossa Gloria. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por annuncio para tratarem da casa de um viuvo só, devem trazer intenções muito exquisitas. Será preferivel uma velha.

—Não! as velhas cheiram a gallinha, desde que não sejam de fina sociedade. Uma, que metti por experiencia em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha bôa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciaes, numa dona de casa. Quero uma moça educada.

Armindo Telles, enfiando o sobretudo, de que levantou a golla até ás orelhas, offereceu-se para vir esperal-a no dia seguinte...