Ha dias em que nem tenho tempo de beijar minha filha... O homem publico é um galé, principalmente neste nosso paiz, em que os mais puros devotamentos são sempre interpretados ás avessas!

—Muito bem! Apoiado! exclamou o conselheiro, levantando-se.

—Eu sei que você é um homem corajoso, desde aquella celebre caçada que fizemos juntos em Theresopolis... lembra-se? perguntou, sorrindo, o dr. Sebrão ao Pedrosa.

—E com bastantes saudades!

—Quem tem edade e competencia para arcar com o peso de uma pasta é alli o amigo Argemiro... disse o conselheiro Isaias.

Argemiro protestou; era um homem sem maleabilidade; não podia servir bem á politica. Ao mesmo tempo o dr. Sebrão, voltado para Adolpho Caldas, começou a descrever a caçada feita com o Pedrosa e outro amigo nas florestas da serra.

—Tinham-nos fallado em javalis. Uma madrugada partimos da Varzea, montados nuns velhos cavallos de aluguel, nós e mais um velhote de Theresopolis, que se inculcara como excellente guia. Levavamos boas armas, bom farnel para o almoço, estando combinado voltarmos a jantar com a familia. Trotámos para o alto, o velhote na frente, nós muito esperançosos, atrás. Chegados a um certo ponto amarrámos os animaes e mettemo-nos a pé pelo matto. Imaginem que entrar nas florestas da serra é como entrar na treva. Alli, para se ser bom caçador é preciso ter affeito a vista á escuridão do hervaçal e ter creado sobre a epiderme uma segunda pelle, ou melhormente uma especie de couro, onde os espinhos se quebrem sem lograr ferir. Cada vez que os nossos pés se afundavam no colchão de folhas mortas, a idéa de ser mordido pelas cobras juntava-se ao prazer de conseguir matar algum porco do matto. O guia assegurava ter encontrado signaes: galhos quebrados, rastro de animaes em fuga. Seguimol-o com fé. Era prudente almoçar cedo. Comemos á beira do Paquequer, entre touceiras cheirosas de lirios côr de marfim. As aguas convidavam. Quiz banhar-me, mas o Pedrosa ponderou que a fresquidão da lympha applacaria o meu humor sanguinario, que antes deveria ser exacerbado por um golfinho de paraty... Tropeçando em troncos, enrodilhando-nos em cipós, alagando-nos até ao queixo em vallas, passámos o dia inteiro á espera da porcada glorificadora! Mas os diabos dos porcos, zombando dos caçadores sem cães, deram-nos ao desprezo. Escureceu. Quer dizer: o negrume ainda se fez mais negro. O guia, desnorteado, levava-nos para um lado, para outro, sem achar sahida...

Tiritando de frio, rodeados pelo fragor da agua e do vento, alli passámos uma noite pavorosa; eu gemendo com dôres nas articulações, Pedrosa febril e impressionado com a idéa do susto que havia de estar curtindo a nossa boa D. Petronilha... Só no outro dia, ás dez horas, esfomeados, lanhados e rotos, conseguimos sahir da mata. Correu todo o mundo a vêr-nos. As familias choravam. Tinham andado pelas estradas, á noite, com archotes, gritando por nós... Tivemos de passar cabisbaixos e envergonhadissimos por entre os curiosos... explicar aventuras... imaginarias... E querem vocês saber? Passaramos a noite a pequena distancia de um hotel! O barulho da agua e do vento abafou os outros rumores que nos denunciariam essa salvação. Foi uma tragedia comica!

—A evocação não foi das mais felizes para consolar o amigo Pedrosa das suas attribulações! disse ainda o murcho conselheiro Isaias, levantando-se do seu canto. E depois, para o Argemiro:

—É tempo de irmos prestar as nossas homenagens ás senhoras; não lhe parece?