—Teria graça se o nosso Assumpção atirava a batina ás urtigas por amor da tua...
—Cala-te, impio!
—Estou calado! Mas é cada vez mais adoravel, o Assumpção! Para mim, elle tem lá dentro coisa occulta, obra de feitiçaria, que nem a minha sagacidade nem talvez a tua intimidade pôde adivinhar... Não te parece?
—Não. Nelle ha só o amor do ceu... mais nada...
—Estás seraphico! Pois tu acreditas que hoje em dia, um homem valido se faça padre só por amor do ceu? Qual, historias! Elles escolhem a vida clerical como poderiam escolher outra qualquer acommodada ao seu egoismo e á sua habilidade... Os intelligentes pensam tanto na vida eterna como eu ou tu, mas fazem nesta o que podem para chegarem a bispos... Tenho um medo d'elles que me pélo... O nosso Assumpção é um exemplar unico, faz-me lembrar um d'esses sacerdotes virtuosos dos romances anti-clericaes, com que o auctor adula o sentimento dos leitores piegas... O que me agrada sobretudo no Assumpção é que elle é mais amigo da humanidade que dos santos; e gasta-se mais em esmolas que em jejuns... Não vês o recato em que elle envolve as suas acções e as suas idéas? Annulla a sua personalidade, como para dar vulto ao facto e pôr em toda a evidencia a personalidade alheia... A palavra eu parece que lhe morre na garganta antes de lhe chegar á bocca, e todavia elle é intelligente. Já me tenho servido da sua bibliotheca; é opulenta em obras classicas portuguezas. Se fosse escriptor, seria um defensor da lingua!
—O valor do Assumpção, para mim, que o conheço desde bem moço, está principalmente no coração. Elle é bom. Ás vezes penso que elle estaria melhor num logarejo qualquer do interior, ensinando crianças e animando a pobreza a supportar a vida, do que no Rio de Janeiro. Dizes bem. Elle não é luctador nem ambicioso; é um resignado e um meigo. Se eu tivesse um irmão não lhe quereria mais. Entretanto, o Assumpção nunca me confiou o seu segredo, que elle guardou sempre com tamanho recato que tive escrupulo em interrogal-o. Por que não havemos de acreditar na vocação? Elle sempre foi um mystico. A mãe, uma senhora adoravel, fez tudo para desvial-o do sacerdocio; batalhou como uma heroina; mas elle dizia-se chamado por Deus, e Deus venceu a vontade materna. Fomos sempre amigos. Elle vivia com a sua illusão, eu com o meu peccado; e com tão oppostas idéas nunca offendemos a nossa amisade. É verdade que elle me contagiou um pouco do seu sentimentalismo. É mais forte do que eu, que não lhe transmitti nem uma sombra da minha personalidade...
—Não lhe conheceste nem uma paixão?
—A dos livros, de que fallaste ha pouco; e essa mesma ha alguns annos é que me dá a impressão de ser a taboa fluctuante do seu naufragio!
—E tua filha?
—Sim, elle adora minha filha!