—Velha?! moça! e toda presumpçosa, com a sua gravatinha azul!
—Pensou, talvez, que a gravata fosse minha!
—E d'ahi!... Ó diabo, corre aquelle reposteiro!
—Falla á vontade. Ninguem nos ouve.
—Que confiança!
—Absoluta.
—É extraordinario!
—É extraordinario. Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranquillo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas sinto-a; a sua alma de moça como que enche estas salas vasias, de juventude e de alegria. Sózinho com os criados, eu abandonava-me. Ia ás vezes para o almoço de chambre e de chinellos; passava pelo jardim sem olhar para os canteiros; e no escrupulo de alterar as coisas da antiga ordem em que as dispuzera minha mulher, deixava-as envelhecer monotonamente, sem uma reforma que as alegrasse. Eu estava mofado, tinha bolor na alma. Botava pontas de cigarros pela casa... estava, emfim, de um desmazelo torpe! Depois, sentindo a influencia d'ella, percebendo-lhe os gostos finos, que em tudo se demonstravam, comecei a exigir de mim habitos mais cortezes e a tratar a minha pessoa com mais consideração e maior carinho. A idéa de que ella poderia ver-me por uma fresta de veneziana, quando eu ia para a rua, fazia-me prestar attenção ao meu jardim e observar o seu progresso e melhor tratamento... Almoçando, eu via na cadeira vasia em frente ao meu logar, a minha governante a observar por que maneira eu levava o garfo á bocca ou enchia o copo de vinho. Retomei insensivelmente os meus habitos de elegancia, prejudicados com o abandono em que por tantos annos vivi nesta casa, dirigida por um preto ladino. Entrando da rua, nunca surprendi a minha governante, como aconteceu á Pedrosa; mas ella vinha e vem ao meu encontro num aroma fresco de pomar florido, e que eu nunca sentira antes da sua estada nesta casa. Tu o disseste ha bocado:—Está-se bem aqui!—A pouco e pouco as coisas mudas que me rodeavam, e que só suggeriam idéas saudosas e melancholicas, foram-se despindo d'esse aspecto doentio e talvez tolo e animando-se em novos polimentos ou côres risonhas, que me davam saude. Cadeiras velhas, esgarçadas no estofo, atiradas para uma alcova do porão, subiram lustradas e estofadas de novo para os cantos desguarnecidos das salas, onde o conforto é muito maior do que foi sempre! Repara para o assoalho: um espelho! Vê as cortinas: resplandecentes! Em um meio que se asseava cada vez com maior primor, eu tive de corrigir-me dos defeitos que ia adquirindo na solidão e no desmazelo... Estou só, sentindo que sou o alvo da attenção e da magnanimidade de alguem... Esta caricia sem mãos sabe-me bem; tanto mais que me dispensa o trabalho do agradecimento! Se não a queria ver antes, por prudencia, não a quero ver agora, por egoismo,—para não desfazer esta illusão agradavel e exquisita, mas bem sincera.
Uma noite, entrando inesperadamente em casa, senti que alguem fugia precipitadamente da sala. Não pude vencer a minha curiosidade; entrei. Junto á janella do jardim, perto de uma cadeira de balanço, encontrei um livro aberto. Ergui-o. Cheirava a flôr de fructa. Era um romance inglez. A minha governante lia inglez! foi a sua primeira revelação. Depuz o livro fechado sobre a mesa e vi o nome d'ella escripto na capa.
Para sympathizar com ella bastaria talvez isso; para respeital-a, o modo porque tem sabido corrigir Gloria das suas brutalidades de menina malcriada...