—Acaba...

—Sem ter posto os olhos nunca em cima d'esta pobre moça, eu parece que a conheço já ha muito... Ella fiava-se naturalmente na sua altivez para defender-se de qualquer assalto. Porque não acreditar que tenha, como tu disseste, vindo acossada pela miseria, estonteadamente, até á minha porta? A unica impressão que tenho d'ella, no dia em que a contratei, foi a de lhe ver as botinas esfoladas... Não lhe vi o rosto, que o trazia velado; mas vi-lhe os pés. Caprichosa como revela ser em tudo, bem vês que só por grande necessidade se sujeitaria a andar assim...

—Porque só uma pobre se sujeita a tal posição, naturalmente; mas as pobres honestas têm outros meios de ganhar o pão, menos suspeitos e sobretudo menos arriscados... Tua sogra tem uma certa pontinha de razão na insensatez do seu ciume... De fóra ninguem póde acreditar que esta situação não seja senão uma fantasia.

—Mas que têm com isso?

—Nós outros, nada; mas tua sogra talvez tenha alguma coisa, por causa da tua filha!

—Não é por causa de Maria... é por mim! Minha sogra é uma sentinella sempre álerta na defesa do meu coração. Ella não se importa que me roubem os haveres ou que eu esbanje a minha fortuna; que eu tenha ou não tenha amigos, que eu trabalhe ou que descançe, que eu soffra ou que eu me divirta; o que ella não quer, absolutamente, é que eu ame! Maria ha de viver eternamente deante dos meus olhos, como vive deante dos seus, e hei de manter até ao meu ultimo alento a promessa que lhe fiz de não tornar a casar-me...

—Tolice...

—Que queres!

—Maria era um anjo... mas hoje é um phantasma; e um homem não póde viver abraçado a uma sombra...

—Dize-lhe isso...