Ah, se elle pudesse despir-se daquella pelle abominavel, mesmo que a fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se d'ella com alegria. Mas a abominação era irremediavel. O interminavel cilicio duraria até que no fundo da cova o verme puzesse a nú a sua ossada branca...

Branca! Era a mulher branca que elle preferia, desprezando com asco as da sua raça.

A superioridade d'aquella que ia toc-toc na sua frente, exasperava-o. O seu humor inalteravel, os seus habitos de asseio e de ordem não lhe tinham dado ensejo para a intriguinha facil e perturbadora. Chegara o dia de castigar a affronta d'aquella branca intromettida, que elle odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum segredo que a compromettesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho parceiro africano...

Mas d'esse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar com os da sua intelligencia e malignidade.

Tinha ainda na memoria uma sentença materna: «quem faz feitiço morre de feitiço» e essa idéa affligia-o. A mãe era filha de mina. Devia saber... Aquella branca pobre e presumpçosa, que era mais do que elle na ordem das coisas, para o tratar assim por cima do hombro, com um arzinho superior de patrôa fidalga?

—Ella ha de me pagar!

O que elle queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mysterio d'aquella existencia fluctuante, sem raizes conhecidas; assenhorear-se de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.

Como aos de Adolpho Caldas, ella tambem representava aos seus olhos o encardido papel de especuladora.

Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça.

O arrependimento entraria então no coração de Argemiro.