A INTRUSA

[I]

—Que temporal!

—E um friosinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho forte da chuva quando se está agazalhado? Eu estou-me regalando!

—Sempre o mesmo egoista! Como estás em tua casa!... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quasi horas de me ir recolhendo aos meus penates. E alli o padre Assumpção, caso não fique pelo caminho, terá tambem que marchar um bom pedaço a pé. Ao Telles, esse o bond leva-o até ao quarto de dormir! Nasceu impellicado.

Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Claudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assumpção, o deputado Armindo Telles e o Adolpho Caldas, homem de quarenta annos, sem profissão determinada, mas muito bem acceito nas rodas politicas e litterarias, que frequentava assiduamente.

Tinham jantado tarde, fumavam agora na bibliotheca de Argemiro, sentados á mesa do poker.

Menos por virtude que por cansaço, padre Assumpção não quizera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o panno da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma côr pallida; e nas suas feições accentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolpho Caldas costumava dizer:

—O riso do Assumpção cheira a rosas brancas.

O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diarios do Rio—dos mais distinctos do nosso fôro—jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos á sua casa de viuvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...