O marido intervinha ás vezes, aconselhando que deixasse á outra todas as determinações, ao que ella respondia—se valêra a pena ter sahido da chacara para se pôr á tutela da inimiga!

—Não, meu velho, tem paciencia, eu estou de sentinella á ultima vontade de minha filha. Elle jurou: terá de cumprir o juramento. Esta mulher é mais perigosa do que eu pensei, porque é tambem hypocrita e sabe conquistar pelo geito toda a gente. Menos a mim! Gloria pertence-lhe. Já me tem feito chorar, a filha da minha filha, por quem tanto me desvelei sempre! Até parece que já lhe vou perdendo o amor...

Não percebes o calculo?

—Não percebo nada. A rapariga trata como pode de ganhar a sua vida. O que tu fazes, filha, não é digno de ti. Inventaste uma paixão, onde talvez não exista nem sympathia, e vives a debater-te deante de fantasmas. A moça é fina; não é do estofo commum das governantes, isso é certo... Mas sabes lá, tu que tens vivido sem necessidades, a que sacrificios obriga a pobreza?

—Não faltam officios!

—Mas sobejam concorrentes... Eu sei o que vae por ahi! Olha: vou apontar-te um exemplo: o Dr. Theobaldo Ribas. Lembras-te? Um engenheiro distinto! Está com um emprego secundario numa companhia de empreitadas; a familia habita numa casinhola de porta e janella na Cidade Nova e póde-se adivinhar o que se passa lá dentro, entre oito crianças fracas e o casal sem recursos... Eu, francamente, não sei mesmo como esta pobre moça ainda te atura. Pelas desfeitas que lhe tens feito, se fosse outra...

—Ter-se-ia ido embora. É o que eu digo. Não tem brio. Mas o meu partido está tomado: custe o que custar e seja como fôr, hei de pol-a fóra d'aqui.

—Não faças isso!

—Ora essa! por que não?

—Não estás em tua casa!