—Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo tecto com uma creatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.
—Com esta, coitadinha, parece-me que isso ha de ser facil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governante bonita, ou pelo menos graciosa. A belleza suggestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegancia. Imagina, se ella effectivamente fôr aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade á nossa situação!
—Preferes o perigo...
—Para pôr á prova a minha impassibilidade e dar-me ares de heroe—respondeu, rindo, Argemiro. Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue-frio.
—Tolices!
—Mas que queres que eu te diga, a ti que me conheces de cór e salteado?! Vens com uns ares exquisitos assustar-me com um futuro que não promette coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo d'esta imposição está nisto: ser-me-ia penoso vêr agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão viuva, que só vivo para sentil-a. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridiculo. Tu me comprehenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher atravéz do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ella preside á minha vida, soberanamente.
Expliquei á outra, que ahi veio, que só uma razão me obrigava a impôr-lhe esta clausula extravagante: não querer dar azo á maledicencia e aos commentarios dos criados... Como se isso me importasse!
—E ella?
—Acceitou.
—Emfim... acho que fazes mal. Mas isso é comtigo. Preferiria que te casasses, apezar...