—Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer...
Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha...
Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda...
—Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa, sabes?
—O burro do Pedrosa vae ser ministro.
Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias interrompidas.
O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e que viajava só.
Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas.
—Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.
—E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto, veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas...