Maria da Gloria agarrou-se ao pae, atordoada com o borborinho do povo com que ia esbarrando; aquillo alvoroçava-a sem divertil-a, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papae lhe beijavam a mão, como a uma princeza, acordava nella uma curiosidade extranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrinas, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pae, que, docil como a cêra molle, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só d'elle, nesse sabbado bemdito.

Quando chegaram ás Laranjeiras, o pae subiu logo para o seu quarto e recommendou a Gloria que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.

Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapeu á jardineira. A antipathia da avô suggerira-lhe instinctiva repugnancia por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governante das Laranjeiras. Ah, mas Gloria tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança comsigo. Uma alugada, uma mercenaria!

E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pellucia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a bocca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquella attitude não era agradavel, o chapeu sobretudo incommodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um colchete. Supportou o sacrificio heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura.

Gloria impertigou-se mais. Alice approximou-se d'ella sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Gloria levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:

—Quero vêr o meu quarto.

Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas:

—Siga-me...

Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janellas abertas para os lados do Sylvestre e duas camas brancas.

—É aqui?!