Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir deante da expressão de seriedade quasi comica da filha.
—O teu gato?
—O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a primeira coisa que eu fazia era correr para o páteo da criação... D. Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para elle, e gostava de ver aquelle focinhinho, toca que toca, mastigando a verdura... Hontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura para alli, e fomos achar o coitado embaixo da paineira, todo esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina... Então eu e a Emilia fizemos uma cova, forramos a terra com a paina limpinha, deitámos alli D. Fuas, tornámos a cobril-o com paina, depois com terra, e acabou-se!
—Choraste?
—...Chorei... mas vovô prometteu-me outro!
—Á saude do outro que ha de vir e que te consolará!
Argemiro bebeu convictamente á saude do coelho, como se o fizera á de uma illustre personagem. Como elle adorava e era grato a tudo o que alegrasse a vida da sua Gloriazinha!
Ouvia-a com tal interesse, que a chamma infantil dos olhos d'ella ateava-lhe n'alma curiosidades de criança, tambem. Eram dois meninos á mesa, áquella mesa que Alice enfeitara como para um noivado.
Passaram então a discutir as qualidades dos animaes predilectos.
Argemiro elogiou os gatos. Gloria repellia-os; preferia os cães e cães de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ella! Confessou ter muito desejo de ver leões e elephantes. Contou que uma onça, fugida do Jardim Zoologico, andára rondando a chacara: mas que, visse o pae que exquisitice! ella só se lembrava de temer a féra á hora de ir para a cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela horta, pelo pomar... Mas á noite!...