—Se não fosses padre...
—Não proporia zelar por tua filha com tamanho interesse...
—Por que?!
—Porque seria provavel que estivesse velando pela minha...
Argemiro levantou os olhos para o padre Assumpção, com uma pontinha de espanto, e mal lhe percebeu nos labios finos um fio subtil de ironica amargura.
—Está bem; cedo-te por instantes o meu logar e dir-me-ás depois se elle vale a solidão a que te condemnaste!...
O padre Assumpção desceu á sala onde Maria arranhava o teclado com uma furia de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desharmonias d'aquella criança, em que elle sentia um vago perfume da saudade materna. Quão differente fôra a mãe, toda delicadeza e graça, do que era agora a filha! Na penumbra da sala reconstruia-lhe o vulto airoso e fino, que os bandós loiros illuminavam de uma luz branda, de sol de primavera.
Que linda a vira naquella mesma sala, áquella mesma hora...
Maria levantou-se com impeto. O padre Assumpção attrahiu-a a si e beijou-a na testa, com infinita ternura.
—O senhor está tremulo... Onde está papae?