Na primeira segunda-feira o padre Assumpção recebeu muito cedo uma cartinha da Baroneza:
«Gloria está nas Laranjeiras; é hoje o dia determinado para o seu passeio. Confio-a á sua guarda; olhe por ella.—Luiza».
Assumpção telegraphou a Alice. Esperal-a-ia no largo do Machado, ás tres horas.
Logo que Maria deparou com o seu grande amigo sentado sózinho em frente á estatua, correu alegremente para elle e afogueada, risonha, abraçou-o com força. Elle mal teve tempo de interrogal-a e já ella, revelando uma piedade até então occulta no mais fundo do seu peito, lhe contou o que vira, toda enthusiasmada. Vinha do Instituto dos Surdos-mudos.
—Ah, padre Assumpção, eu não sabia que havia gente assim, fechada dentro de si mesma, como me explicou D. Alice. Que desgraçados seriam se não houvesse aquella casa tão boa, e onde elles conseguem aprender tudo, como os homens perfeitos! Como a gente tem vontade de ser boa, quando vê coisas d'essas!
E tremula, loquaz, desatou a descrever as aulas, as officinas, os dormitorios do estabelecimento, e os grupos dos alumnos, risonhos, limpos, socegados...
Padre Assumpção voltou-se para Alice, que, sentada a seu lado, riscava a areia do jardim com a ponteira do chapeu de sol.
—A senhora já foi preceptora?
—Nunca...
—Não podias ter empregado melhor o teu dia, minha Gloria; agradece a D. Alice ter-te feito conhecer infelizes, cuja existencia, como disséste, desconhecias... e que te despertaram tão bons desejos... Agora, vamo-nos embora, que tua avó deve estar impaciente!