Assumpção soffria por não encontrar remedio para os males futuros, que via proximos. O seu papel estava feito por si, tinha de acceital-o, fazendo, como religioso, cumprir-se um juramento dito em nome de Deus. Mas o amigo? mas o homem? mas aquella pobre mulher sózinha? Deveria consentir que a guerreassem como a uma inimiga?

Elle não era cego nem era surdo. A obra de Alice era de paz e de beneficio. Fôra ella que modificara as impetuosidades d'aquella criança, cuja vontade omnipotente dobrava tudo e todos a seu bel-prazer.

Seria isso um calculo, uma impostura? Especularia ella, servindo-se da filha para entrar no dominio do pae? Afinal, que se sabia d'ella? Que pertencia a uma boa familia decahida da fortuna e que passava por uma moça honesta...

Em boas familias quantos maus germens existem e quantas mulheres honestas maquinam tramas infernaes! O confissionario ensinara-lhe que o bem e o mal nascem da mesma fonte sempre inconstante e fertil...

A familia... Seria certo o que a Baroneza lhe insinuara? Dissera que uma récua de famintos ia tirar aos criados de Argemiro os pedaços que lhes competiam...

A que horas? Como? Deveria tambem indagar d'isso?! Por que não, se esse era um meio de conhecer a mulher com quem talvez tivesse de luctar?

E uma triste sympathia attrahia-o logo para a pobre governante, sempre bem arranjadinha nos seus vestidos surrados, sempre sorridente e sempre simples.

—O senhor tambem parece mudo! disse Maria, rindo.

—Estava pensando cá numas coisas...

—Eu tambem.