—Tenho pena d'ella. Agora tenho pena d'ella...

—Agora?

—Antes não tinha... tinha raiva.

—Mas... porque? ella queixou-se?

—Não... não sei porque! mas acho aquillo exquisito! Mal sente os passos de papae, zás! foge! chega a ser engraçado!

Realmente é uma situação de comedia, pensou Assumpção, rindo involuntariamente com Maria.

E a situação prolongava-se. Argemiro, cada vez mais caseiro, não lobrigava nem a pontinha da saia de Alice, a quem, de resto, resolvera definitiva e absolutamente evitar, contente por sentir a influencia d'ella não só no seu lar como na sua filha. Maria aproveitava sempre as segundas-feiras em passeios, uma vez ao Jardim Botanico, outras aos asylos ou a novos bairros e differentes jardins, trazendo sempre impressões bem definidas e em que se percebia uma direcção cuidadosa e intelligente. A pouco e pouco a criança ia-se tornando mais observadora e mais piedosa. O padre Assumpção, que ia buscal-a sempre no ponto indicado por Alice, sentia arraigar-se-lhe a idéa de que esses passeios através da cidade desenvolviam melhor o espirito e o coração de Maria do que o mais volumoso livro de moral.

Se vinha de visitar um asylo de velhos, com que meiguice Gloria falava dos seus cabellos brancos, dos seus passos tremulos e do seu triste sorriso desdentado! Se vinha da Tijuca, quantas exclamações de enthusiasmo para as bellas arvores poderosas e as quédas de agua da cascata e as lindas flôres sylvestres! Se vinha do mar, que de indagações curiosas sobre os navios e lanchas, e quantos elogios para as largas paizagens azues, varridas de ar fresco! A vida dos marinheiros, com os seus perigos, a dos pescadores com os seus atrevimentos, attrahiam a sua sympathia e a sua piedade. Ia vendo que o numero dos sacrificados é muito maior no mundo do que o dos felizes e assim se tornava menos selvagem e mais humana.

Ora, o padre Assumpção sabia bem que tudo aquillo era reflexo e suggestão de Alice. Maria era intelligente, e as suas qualidades moraes, ainda informes, propendiam mais para a maldade que para o bem. Aquella metamorphose era, pois, toda, obra da moça, que parecia acolher a companhia da criança como um presente cahido do ceu... Realmente, ella estava tão só!

O ciume da baroneza augmentava a cada novo triumpho de Alice, que lhe disputava a neta com furor. Soffria calada, não ousando queixar-se nem ao marido nem ao padre Assumpção, que ambos glorificavam com enthusiasmo a obra da moça. Fechada na sua chacara, á sombra das mais lindas mangueiras dos suburbios, ella maldizia a hora em que o genro chamara para casa aquella aventureira, cujo proposito percebia ás leguas. O Feliciano não voltára, e ella tinha pena... só elle lhe poderia dizer toda a verdade, por não estar enfeitiçado pela bruxa e por conhecel-a melhor que os outros, visto estar sempre na sua convivencia...