Alguns mastigam palavras, as mesmas palavras sempre, muito contentes, a rir sosinhos...
A macaca apparece aos pulos. Conhecem-a todos por este nome. Não tem outro. Quando a mandam chamar, diz-se: «Chamem a macaca»; os guardas acenam-lhe e dizem-lhe:—«Anda cá, macaca!» Ella vem. Toda a gente que foi alguma vez a Rilhafolles nos ultimos annos a conhece. Entrou para ali no dia 5 de setembro de 1855. Tinha nove annos. Entrava no mundo pela peior das portas,—pela porta de Rilhafolles. Era enfesada, cabecinha aguda, orelhas grandes, ar bestial;[{55}] ali lhe tem crescido o corpo, ha dezeseis annos. Não pede de comer, nem lhe importa isso. Diz-lhe o instincto que a natureza e a sociedade lhe devem um prato de sopas no jantar de cada dia e espera que lh'o vão metter na boca. Quando vão dar-lh'as, come-as,—sem cuidado e sem agradecimento. Agradecimento de quê? Quem imagina que o ar no dia de ámanhã já não seja respiravel, e que o sol nunca mais torne a sair? O mesmo se dá para ella com as sopas. É abrir a bocca, e lá lhe irão parar. Está gorda, agora, com os seus vinte e quatro annos. O director diz que está magnifica; e queria que eu lhe apalpasse a cabeça para vêr[{56}] até que ponto é molle. Consideram geralmente lá em Rilhafolles que ella está muito bem; saudavel e feliz. E dahi,—talvez! Pobre macaca! Desraizada do mundo, e plantada na vida como uma cebola de jacintho na agua!...
Passam ali a sua vida, no pateo, e quando olham uns para os outros—não sei se se vêem. Toda a gente faz alguma coisa, elles não fazem nada; toda a gente pensa alguma coisa, elles não pensam em coisa alguma; até os animaes teem memoria, e lembram-se de quem lhes faz mal, de quem lhes faz festas, conhecem as pessoas com quem teem vivido:—elles não se lembram nem conhecem ninguem. Uma aranha é[{57}] mais do que elles! a aranha arranja a teia, elles não arranjam nada!... De fóra d'aquella casa, anda ahi pela cidade o espirito, a religião, a politica, a honra, o crime, as desordens da turba: elles não sabem nada d'isso; estão exilados no mundo, e ouvem apenas cortando os ares os gritos bravios dos furiosos![{58}]
IV
Os furiosos
Estes já não tentam dissimular o estado em que se acham,—triste prova de que não conservam sequer um restosito de juizo!... De physionomia vivaz e animadissima, semblante exaltado, olhos extraordinariamente mettidos pelas orbitas, pelle encarquilhada, face cavada e esqualida, saltam-lhes por entre os[{60}] beiços corádos pela febre, como por um arquinho vermelho, gritos e apostrophes que nem dardos!...
Têem idéas, mas fugitivas, sem ligação, quebradas. Grande agitação, grandes accionados, grandes berros. Ora vem, ora vão. Fallar sem descanço,—para um—para outro. Puchar a enxerga, atirar com a enxerga. Ir ás grades; segurar, apertar; lucta da carne com o ferro... Vontade visivel de apanhar alguma cousa á unha, de poder deitar-nos a mão. Mas,—nem mesa, nem cadeira: nem, ás vezes, uma tigela para despedaçar...
—Anda cá! Olha! Chega aqui! dizem alguns, com perfida languidez, certo agrado felino, o risinho[{61}] da hyena,—a morrerem de desejo de nos saccudir de encontro ás grades.
Alguns fallam em dinheiro, desconfiam que fomos nós que os roubámos. Outros, de amores; recordam-se, inquietam-se, agitam-se, enfurecem-se... Alguns têem ainda o sentimento da ambição, querem grandezas,—d'essas mesmas grandezas pequenas que por ahi se arrastam de gatinhas com ares de ir n'um andor—e gritam que são magnates e figurões: a tal ponto é profunda nas creaturas a vaidade, que mesmo mortas para o mundo ainda conservam a idéa de alardear possança! Mas já não têem sequer, como os outros, papel doirado,[{62}] para fazerem corôas; nem ha coberta na enxerga para poderem fingir que se embrulham no manto dos imperadores...