III

Os idiotas

Por mais seguro que se esteja de si e dos outros; por mais vaidosa confiança que uma pessoa tenha no seu juizo, e na lealdade dos empregados de Rilhafolles,—é inevitavel o olhar, de quando em quando, como que receioso, para aquelles guardas que fazem o favor de[{42}] nos formar sequito, com um molho de chaves na mão.

Têem cara de bons, devem ser optimos, propensos a affectos benignos, e dotados de inexhaurivel fonte de branduras—estou persuadido; mas dão ás vezes um geito ao corpo, e de outras vezes olham-se entre si como piscando os olhos, com um modo natural, naturalissimo de certo, bem sei, mas que o sentimento febril de terror—que invencivelmente se apodera de quem ali se encontra, sem estar habituado a ir lá—transforma em indicios de uma perfidia atroz!

Quando nos encaminhavamos para ir ver os idiotas, cortámos por uns corredores que se me figuraram[{43}] mais escuros, e descemos por uma escada tortuosa, um pouco sinistra, que levava tempo a descer, e dava tempo a pensar,—um diacho de escada que acordava idéas phantasticas de corredores talhados em penedias, paredes com hyerogliphicos e procissões pintadas, quartos, com poços e ganchorras, para ir dar a outros quartos de onde desemboquem outros corredores, mosqueados de gaviões e serpentes;—lendas de pedra que só os doidos entendam bem, mas que nos dêem a pensar a nós que tambem póde succeder o ficarmos lá...

Eu olhava de esguelha para o director, e chegava a parecer-me ás vezes que me olhava elle tambem[{44}] de soslaio. É o terror, horror, pavor, de Rilhafolles. Sentimento especial que só ha ali, que só ali se conhece. Lembra-me aquelle-caso de um sujeito, a quem o dr. Pulido no tempo em que foi director d'este hospital convidou de uma occasião a jantar dizendo-lhe que lhe havia de mostrar os doidos.

—Nunca viste? perguntava-lhe o doutor.

—Não, nunca vi.

—Pois has de ver. É curioso.

Pozeram-se á mesa em companhia de dois doidinhos socegados, pessoas finas que estavam recolhidas em Rilhafolles havia pouco tempo.