Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica, naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a sua introducção na sciencia, as monomanias de Esquirol triumphavam ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de grandezas, outra. O Tratado de Marcé, o mais cotado dos livros classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de 1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no capitulo anterior.

Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o Darwin da psychiatria. Fallava para o futuro o auctor das Degenerescencias Humanas, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das idéas.

É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o Tratado de
Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios
systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de
Gérente.

Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a provar com o apoio dos factos, que não existe um delirio hypocondriaco, um delirio de perseguições e um delirio de grandezas, mas uma vesania, o Delirio Chronico, de que aquelles não são senão phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos que em vez d'essas monomanias, tão artificiaes e tão confusas, de certos auctores, appareça claramente, emfim, uma só e mesma especie morbida que chamaremos o Delirio Chronico»[1].

[1] Gérente, Le délire chronique, pag. 10.

O que é, verdadeiramente, este Delirio Chronico? Segundo Gérente, uma doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.

O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o Delirio Chronico mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental, n'uma palavra, por uma hyperalgesia psychica; uma autoobservação permanente, uma sorte de habitual ruminação interior de estados physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual, sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois, um hypocondriaco o candidato ao Delirio Chronico; mas não é um alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de contrôle. Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo inicial ou depressivo do Delirio Chronico.

Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania). Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações auditivas, dominam esta phase do Delirio Chronico, de uma duração que póde ser muito longa.

Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica, enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza, ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva. Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.

Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro. Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas, sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na sua exclusividade o terceiro periodo do Delirio Chronico.