Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia, o que equivale a dizer—pelas mais ou menos extensas systematisações que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então, entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva, extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas imagens mentaes, em summa.
Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e completa consciencia, a obsessão, representando um começo de dissociação pessoal, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma obnubilação da consciencia individual, pois que esta não póde comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e expressão da unidade do Eu.
Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes Lições sobre as doenças mentaes e nervosas de Séglas, publicadas em 1896. Este imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que defendemos.
A angustia que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo, elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito; outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados, duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões, affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente. Talvez seja assim; mas essa igualdade de circumstancias, reduzindo-se, no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes, não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a angustia reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente não sejam provocadas pela idéa obsessiva.
Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se, e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de estado secundario e de sonho,—o que tem permittido comparar as obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um delirio systematisado.
Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96, contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta, esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini, Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de paranoia rudimentar por que Arnadt, Morselli e outros designam a obsessão.
Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.
O phenomeno pathologico da obsessão tem, como nota Dallemagne, um representante physiologico no facto banal de uma idéa indifferente que, sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo disparatadamente o curso das nossas preoccupações e desapparecendo um instante depois. Não ha aqui, em verdade, nem angustia, nem irresistibilidade; ha, porém, o phenomeno da emergencia inexplicavel e extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idéas não provocou. A systematisação não existe tambem: um momento presente na consciencia, a idéa desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porém, que a idéa extranha pertence á cathegoria das impulsivas, e concedamos que o acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, á linha férrea um companheiro de viagem. É evidente que o novo caso differe muito do anterior. Em primeiro logar, a idéa tem desde logo um começo de systematisação, por isso que mentalmente nos representamos uma scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens sensoriaes, sentimentos, emoções, idéas de leis e principios moraes, idéas de sanção penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da idéa primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor deveria dizer-se, as systematisações normaes, mais ou menos organisadas e resistentes, repellem a systematisação anomala e intrusa. Esta, todavia, não desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva, dando-nos um instante de inquietação, um sobresalto, um começo de angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face, n'uma agitação momentanea do pulso. Mas figuremos que a idéa se reproduz ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisação, que ella provocou no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das systematisações normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovação deriva o prolongar-se na consciencia a presença de uma systematisação anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras farão nascer o impulso; e este, se as systematisações normaes o não conseguem desviar n'um sentido diverso (a convulsão, o espasmo, o toque d'uma campainha de alarme, o grito de aviso) acabará por ser satisfeito, provocando uma détente, um allivio.
Os caracteres da obsessão pathologica—origem invluntaria, angustia, irrisistibilidade, satisfação consecutiva, estão realisados, O que provocou a apparição d'estes caracteres? Em primeiro logar, as systematisações determinadas pela idéa obsessiva, em segundo, a lucta d'ellas com as systematisações normaes. Se a idéa obsessiva fosse incapaz de provocar systematisações, se fosse indifferente, ter-se-hia dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se não tivesse realisado entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, não existiria angustia concomitante, nem satisfação consecutiva. A obsessão deu-se, pois, á custa, de uma dissociação parcial e transitoria do Eu. Alarmada e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo; clara ao principio, ella obscureceu-se um instante—aquelle precisamente em que todo o vasto e harmonico systema de idéas, de affectos e impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista creado pela idéa imposta.
Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa, de resto; o quadro dos symptomas da obsessão é em todos os casos o mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisações pathologicas e normaes. É n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsessão; tudo o mais é secundario e derivado.