Nem o numero de psychoses ancestraes, nem a sua convergencia nas duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar a impregnação hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a pratica nos depara ás vezes alienados que, tendo, aliás, uma pesada herança psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herança convergente, exhibem fórmas nosologicas insusceptiveis de se distinguirem,—quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela terminação, das psychonevroses puras, isto é, das loucuras accidentaes, das loucuras dos simples predispostos.

Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse clinica, até onde ella póde ser feita, não surprehende mais do que uma psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede, não raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou mãe alcoolicos.

Dir-se-ha, talvez, que n'estas considerações abusivamente restringimos o papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar tambem, pelo menos, das nevropatias.

Mas quem não vê que n'este novo terreno o problema se complica sem se resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam sómente as psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando, as diatheses, é seguro que jámais se determinará á priori, onde a predisposição termina e a impregnação principia.

Tacita ou explicitamente é isto reconhecido pelos proprios auctores que, á maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam á degenerescencia uma pluralidade de causas. Buscando na observação clinica dos symptomas e na marcha das affecções mentaes os indicios da degenerescencia, é evidente que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico.

Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos vêr, immediatamente surge.

Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica deverão ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia?

A este proposito um evidente desaccordo recomeça. Não sendo as doenças mentaes em si mesmas senão anomalias do espirito, o problema posto é o de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio?

Magnan não hesita em adoptar o estado mental do louco antes da invasão da psychose. Ouçamos as suas proprias palavras: «O grande grupo dos predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial, invariavel, pathognomonico: até ao dia em que cahem na loucura, os doentes que o formam são julgados normaes; comparados aos individuos que nunca se tornam alienados, nenhuma differença apparente revellam. É que n'elles a predisposição não adquiriu ainda um grau sufficiente para se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposição é latente e não produziu senão um resultado: fazer do cerebro um logar de menor resistencia e um terreno favoravel, crear uma situação em virtude da qual as causas de desorganisação do equilibrio intellectual terão uma influencia mais marcada do que em outros e uma acção mais duradoura e mais energica. O factor predisposição é evidentemente muito variavel como importancia; o seu valor não póde apreciar-se, á falta de criterio proprio, a não ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razão inversa da importancia do factor predisposição … N'uma outra grande divisão dos predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e moral é completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo facto da aggravação progressiva do factor predisposição. Este grupo comprehende os predispostos com degenerescencia»[1].

[1] Magnan et Legrain, Les dégénérés, pag. 58.