I

II

III

desenhavam nas encostas e eminencias fronteiras as mais suaves ondulações. Dispersos aqui e alli, e entremeiados com a verdura, grupos de casas campestres, alvejantes á luz do sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas conicas, eiras, pontes rusticas, as mesmas talvez que com mau humor trilhára na vespera, tão sinistras então, como graciosas agora; extensas e virentes campinas e lameiros, onde pastavam numerosas manadas de gado. Mais longe a igreja com a sua alameda á entrada e o cemiterio, onde um só mausoléo avultava ainda; uma ou outra casa apalaçada, ennegrecida pelo tempo; algumas ruinas, consolidadas pelas heras, revestidas de musgos, douradas de lichens; finalmente, tudo o que tenta os paizagistas, tudo o que exalça os poetas, tudo quanto suspende os passos ao viajante; e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe a apparencia de uma das mimosas composições a pastel da mão de Pillement.
A mudança de aspecto da scena operou não menor mudança nos sentimentos e disposição do enlevado espectador que das varandas de Alvapenha a estava observando.
—É preciso sair! é preciso sair!—disse Henrique comsigo.—Quero vêr isto de perto; quero entranhar-me n'estes bosques, quero trepar por aquelles montes, debruçar-me d'aquellas ribanceiras.
E vestindo-se á pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa toilette, saiu do quarto.
Encontrou nos corredores a tia Dorothéa, que o saudou amavelmente.
—Muito bons dias, menino, então como passaste tu a noite?
—Deliciosamente minha querida tia—respondeu elle, abraçando-a com maior affecto e bom humor do que na vespera.
O que é sentir-se a gente bem!
—Então não estranhaste?
—Estranhei immenso!
—Sim?!—disse a tia, mortificada.
—Dormi a noite de um somno, e acordei bem disposto; o que para mim é a mais estranha das occorrencias.
A tia sorriu satisfeita.
—Pois antes assim. E agora...
—E agora quero sair, quero vêr esta terra, que me está parecendo um paraiso terreal.
—Espera, menino. Não vás sem almoçar.
—Almoçar! Pois que horas são?
—Não é cêdo; são já sete horas.
—Já sete horas!
E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janella, para vêr como era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.
—E então acha que se pode almoçar ás sete horas?
—Por que não? Se está já prompto.
—Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os habitos da aldeia. Principiemos por este.
Entrando para a sala do jantar, Henrique viu deante de si uma taça de leite espumante, tépido, odorifero, extrahido de pouco tempo.
Foi por elle que principiou o almoço.
Pela primeira vez na sua vida disse elle ter bebido o leite verdadeiro, o leite que não faz mentir a analyse dos chimicos, de que os physiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das georgicas cantam as delicias e virtudes; só agora os comprehendeu elle, que bem differente d'aquillo era o aguado e quantas vezes derrancado sôro, a que estava habituado na cidade.
D. Dorothéa, almoçando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo o costume, continuadamente.
Henrique, d'esta vez, falou tanto como ellas.
Ouvia-as já com mais attenção e respondia-lhes com mais vontade e paciencia.
Falaram em muitas coisas.
A tia deu parte ao sobrinho de que varias pessoas da vizinhança, sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de gallinhas, offerecendo-se, ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da terra; disse mais que as senhoras da quinta do Mosteiro tambem tinham já mandado saber d'elle, Henrique, e lembrou que seria delicado ir visital-as aquella manhã.
Henrique concordou em tudo, quasi sem reparar em quê, e terminando o almoço apressou-se a sair para o campo.
—E se te perdes, menino?—lembrou a tia.
—Se me perder, farei por achar-me.
Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-o ir.
Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tambem então lhe parecia graciosa, de uma graça bucolica, a que não estava habituado. O aspecto melancolico da vespera desvanecera-se. Até para ser completa a mudança, estavam encadeados nas casotas o Lobo e o Tyranno, cujas boas graças comtudo procurou conquistar, atirando-lhes biscoutos.
Foi um passeio delicioso o que elle deu. Tudo quanto via lhe era novidade, tudo lhe captivava a attenção e o distrahia dos seus lugubres pensamentos.
Depois de muito andar, de subir collinas, de descer valles e costear ribeiros, foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa terrea, caiada de branco, com portas verdes e janellas envidraçadas, sendo os vidros em alguns dos caixilhos substituidos por papel. Á porta d'esta casa estava muita gente parada; mulheres, velhos, moços, creanças, uns sentados, outros deitados, outros a pé e encostados á umbreira, e todos apparentemente aguardando alguma coisa ou alguem do lado de uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se dirigiam todos os olhares.
Henrique approximou-se d'esta casa com alguma curiosidade, que cêdo satisfez, vendo em uma taboleta, suspensa no alto da janella, a seguinte pomposa inscripção: «Repartição do correio», e, como a confirmar o distico, um córte feito na porta para a recepção das cartas.
Lembrando-se da conveniencia de avisar o empregado do correio para lhe serem remettidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique entrou na repartição.
Consistia esta n'uma loja apenas, mobilada com um banco de pinho e dividida por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal do serviço, isto é, um homem por junto; e era este o sr. Bento Pertunhas, personagem importante na terra, e a cuja intelligencia e solicitude estavam confiadas mais do que uma funcção. Além de servir, em interinidade permanente, como muitas vezes são as interinidades do nosso paiz, este cargo, dito por elle, de «director do correio», estava de posse s. s.a de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se procura em Portugal fomentar nos concelhos ruraes o gôsto pelas lettras antigas; era ainda regente e director da philarmonica da terra, armador de igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares, e, quando Deus queria, auctor de alguns tambem.
Vendo entrar Henrique nos seus dominios, o illustre funccionario tirou cortezmente o seu bonnet de pelle de lontra e ergueu-se da banca para cumprimentar tão honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou disse o nome de Henrique.
Admirado por ser já conhecido, Henrique interrogou o latinista e, achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu-se de que estava na presença de um esmerilhador de vidas alheias do mais fino quilate e de um falador de assustar.
Com o fim de cortar a divagação, em que o homem entrára a respeito de certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o correio não chegára ainda.
—Saiba v. s.a que ainda não—respondeu o sr. Bento Pertunhas—mas não deve tardar; o homem que d'aqui vae buscar as malas á villa, se bem andasse, já cá podia estar. Esse formigueiro de gente, que v. s.a ahi vê á porta, está á espera d'elle. Hoje então, que chegam as cartas do Brazil, ninguem pára com este povo. Dão-me cabo da paciencia. Isto é um inferno! Eu sirvo este logar interinamente, emquanto o empregado está paralytico; porque eu tenho outro cargo publico; sou professor de latinidade.
—Ah!...
—É verdade, mas a minha vocação era para as artes. Meu pae queria que eu fôsse padre e mandou-me ensinar latim; mas já então a minha paixão era a musica. Eu ainda queria que v. s.a me ouvisse tocar trompa, que é o instrumento que mais tenho estudado... Se v. s.a se demorar ha de fazer-me o favor...
—Com muito gôsto.
—Não poder um homem seguir no mundo a sua vocação!
—Ainda assim não se pode queixar muito. O cultivo das lettras latinas deve-lhe proporcionar gosos; porque emfim para quem possue instinctos de arte, a leitura dos poetas já é um lenitivo contra as agruras da vida.
O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.
—Os poetas? Os poetas latinos! Ora essa! Então parece-lhe que pode achar-se gôsto em lêl-os? Ai, meu caro senhor, eu por mim tenho-lhe uma vontade!... O latim!... a mais destemperada e desesperadora lingua que se tem falado no mundo! Se é que se falou—accrescentou em voz baixa.
—Então duvida que se falasse latim?—perguntou Henrique, sorrindo.
—Eu duvido. Não sei como os homens se podessem entender com aquella endiabrada contradança de palavras, com aquella desafinação que faz dar volta ao juizo de uma pessoa. Sabe o senhor o que é uma casa desarranjada, onde ninguem se lembra onde tem as suas coisas quando precisa d'ellas e passa o tempo todo a procural-as? Pois é o que é o latim. Abre a gente um livro e põe-se a traduzir e vae dizendo: «As armas, o homem e eu, canto, de Troia, e primeiro, das praias.» Quem percebe isto! Ora agora peguem n'estas palavras e em outras, que elles punham ás vezes em casa do diabo, e façam uma coisa que se entenda! É quasi uma adivinha. Ora adeus! E depois—continuou elle, enthusiasmado com o riso de Henrique, suppondo-o de approvação—e depois as differentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tambem tem graça. Nós cá dizemos por exemplo: «reino e reinos» e está acabado; lá não senhor; diz-se regnum e regna e regni e regno e regnis e até regnorum. Ora venham-me cá elogiar a tal lingua!
Henrique estava achando delicioso o odio entranhado de mestre Bento Pertunhas á latinidade que ensinava com a proficiencia, que o leitor pode imaginar, depois do que ouviu.
—Ai, meu caro senhor—continuou o atribulado magister—eu se me vejo um dia livre d'este amaldiçoado latim, faço uma fogueira, na qual me hei de regalar de vêr arder o Tito Livio e os Virgilios todos tres.
É de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-se a Virgilio.
Quer-me parecer que para este interprete da litteratura latina tinham de facto existido tres Virgilios, provavelmente irmãos, e cada um auctor de cada um dos tres volumes da edição, que lhe servia de texto. Dizia Virgilio 1.º, 2.º e 3.º, como quem se refere aos monarchas homonymos, que succederam n'um mesmo reino.
—Não me salvo se morro mestre de latim—proseguia elle.—Afunda-me no inferno o trambolho da syntaxe.
Ia continuar, quando toda a gente, que Henrique viu fóra da porta, principiou em desordenada azafama a entrar para a loja, que em breve não comportava mais ninguem.
—Ahi vem o homem, sr. Pertunhas; ahi vem. Graças a Deus, que ahi vem!—diziam todos á uma.
O funccionario principiou a impacientar-se.
—Então! então! Por onde ha de elle entrar, fazem favor de me dizer? Saiam, saiam. Não ouvem? Então não fazem caso das minhas ordens? Dêem logar. Não vêem que estão molestando este senhor?
Cada um dos reprehendidos n'estes termos indignava-se, ao vêr que os outros não obedeciam ás ordens, mas, pela sua parte, não cedia um passo, como se lhe valesse algum especial privilegio.
—Saia você, mulher—dizia um.
—E você por que não sae? Olha agora!
—A todos ha de chegar a vez. Descance. Se tiver carta lh'a darão. Lá por estar aqui não é que...
—Pois então saia tambem. Ora essa!
—Ó santinha, não empurre.
—Ó filho, quem é que lhe faz mal?
—Por onde é que se quer metter, homem de Deus?
—Eu não sou menos que os outros.
—Que quereis vós d'aqui, canalhada?
—Não bata, que ninguem lhe tocou, seu velhote.
—Espera que eu te falo.
Estas e analogas vozes abafavam n'um rumor tumultuoso as agudas declamações do «director do correio», o qual obrigou Henrique a passar para dentro da teia, para se salvar das ondas populares.
Henrique estava achando igualmente curiosa a indignação do homem e a alvoroçada anciedade do povo.
Ha de facto poucas scenas tão animadas, como a da chegada do correio e da distribuição das cartas em uma terra pequena. Durante a leitura dos sobrescriptos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um observador, que estude attento as impressões que essa leitura opéra nos semblantes dos que ávidos a escutam, como que vê levantar-se uma ponta de cortina, corrida a occultar-nos as scenas da comedia ou da tragedia da vida de cada um.
Que hora de commoções aquella, em que se abrem as malas, onde veem encerrados porventura os destinos de tantas pobres familias! Quantas vezes verdadeira boceta de Pandora, d'onde se espalham as desgraças e os pezares!
Nas grandes cidades dispersam-se estas commoções; passam-se no recato dos gabinetes de cada um. Lembrem-se porém das vezes, em que teem segurado com mão trémula na correspondencia, que o correio lhes traz; no anciar do coração com que lhe rasgam o sêllo; nas lagrimas ou sorrisos com que lhe interrompem a leitura; no irresistivel movimento de desespero com que a amarrotam depois, ou nas expansões apaixonadas com que beijaram o nome que a subscreve; lembrem-se d'isso, multipliquem depois esses affectos todos, despojem-os das reservas que a etiqueta impõe ás classes mais civilisadas, façam-os manifestarem-se n'um mesmo momento e n'um mesmo logar, e digam se concebem muitas outras scenas, em que mais sentimentos e paixões se agitem em lucta travada.
Chegou emfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper até ao mostrador, onde pousou a mala. O «director», depois de tossir, de assoar-se, de suspirar e de limpar os oculos com umas delongas, que formavam com a anciedade do povo um contraste desesperador, abriu fleugmaticamente o sacco, extrahiu um não muito volumoso masso de cartas, que despejou n'um cesto de vime, e tomou apontamentos.
Era digno do pincel de um artista aquelle grupo de physionomias, que seguiam ávidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bôcas abertas, mãos juntas, pescoços estendidos, a cabeça inclinada para receber o menor som, tudo caracterisava profundamente a anciedade que lhes dominava os animos.
Mestre Bento Pertunhas achou a occasião apropriada para dizer a Henrique:
—Pois, senhor, eu nasci para artista. Quasi sem mestre aprendi a tocar trompa e, não é por me gabar, mas prezo-me de tocar com certo mimo e expressão.
Henrique volveu o olhar para o auditorio; apiedou-o a consternação d'aquellas physionomias. Resolveu valer-lhe.
—Tem a bondade de vêr se ha alguma carta para mim?
—Ah! pois já as espera hoje?
—Não é provavel; porém...
Mestre Bento Pertunhas, em vista d'isto, começou em voz lenta e fanhosa a leitura dos sobrescriptos.
Seguiu-se novo e não menos interessante espectaculo.
A cada nome proferido, erguia-se quasi sempre uma voz, ás vezes um grito; estendia-se por cima das cabeças um braço, e, podemos accrescentar ainda que se não visse, alvorotava-se um coração.
Outros, os não nomeados ainda, olhavam com anciedade para o masso, que diminuia, e cada vez mais se lhes assombrava o semblante.
—Luiza Escolastica, do logar dos Cójos—lia mestre Pertunhas.
—Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem!—exclamou uma mulher joven, apoderando-se ávidamente da carta.
—Joanna Pedrosa, de Serzedo—continuava elle.
—Aqui estou; será do meu Antonio, senhor?—disse uma velha, pobremente vestida.
—Será do seu Antonio, será—respondeu o insensivel funccionario;—o que lhe posso dizer é que traz obreia preta.
A mulher, que já tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo aquellas sinistras palavras. Apanharam-lh'a; e ella, tomando-a, saiu da loja, a chorar lastimosamente.
—Se foi o filho que lhe morreu, não sei o que ha de ser d'ella—disse um dos circumstantes.
—Coisas do mundo!—respondeu outro.
Estes commentarios foram interrompidos pela continuação da leitura.
—João Carrasqueiro.
—Prompto, senhor—bradou um velho.
—A mezada, hein?—disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima dos oculos.—O rapaz não se esquece.
—Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem saido.
—D. Magdalena Adelaide de...
—É a morgadinha, é a morgadinha—disseram a um tempo muitas vozes.
—Agradecido pela novidade; era cá muito precisa a explicação—disse o Pertunhas: e passando a carta para uma mulher, que era a encarregada de fazer a distribuição a quem a podia gratificar, accrescentou:
—Leve-lh'a a casa.
E proseguiu:
—Augusto Gabriel...
—É o mestre-escola...
—Ora fazem o favor de estar calados! Esta... como elle vem por aqui... pode ficar... ainda que... será melhor levar-lh'a a casa, leve, leve tambem...
—João Cancella.
—É o João Herodes.
—Esse foi a Lisboa.
—Então, quando vier, que appareça.
—O tio Zé P'reira ficou de receber as cartas. É compadre d'elle.
—Eu não quero saber de compadrices. O tio Zé P'reira que se occupe com o seu zabumba e deixe lá os outros.
A leitura mais ou menos acompanhada d'estes dialogos proseguiu, redobrando de momento para momento a anciedade dos que iam ficando. Um fundo suspiro, unisono, melancolico, expressivo de desalento, seguiu-se á leitura do ultimo nome e ás poucas palavras, com que o funccionario fechou a tarefa.
—E acabou-se.
Os que ainda estavam na loja sairam cabisbaixos, morosos e com tão má vontade, como se ainda tivessem esperança de commover a inexoravel sorte.
Henrique, ficando só com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda, por muito tempo, a narração dos seus passados triumphos artisticos, das suas amarguras presentes no magisterio, e das suas esperanças em melhoramentos futuros. Entre as ambições mais inquietas do mestre, a de obter o logar de recebedor de comarca, proximo a vagar por a morte imminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.
Depois de varias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu interlocutor, e continuou o passeio que este episodio interrompera, tão satisfeito e distrahido, que nem apprehensões lhe causava a ideia de trazer as botas humedecidas pelas hervas do caminho, ideia que, em outra occasião, bastaria para o fazer doente.
Ladeava elle um campo, cingido de altas silvas, a procurar saida para a deveza, da qual um fundo vallado o separava, quando lhe pareceu ouvir um rumor de vozes, como de alguem, que conversasse perto d'alli.
Parou a certificar-se.
Não se enganára. Era do outro lado da sebe, e na deveza, para onde tentava passar, que se estava falando.
Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma scena, que lhe moveu a curiosidade.
Um grupo de creanças e de mulheres do povo escutavam em pleno ar e com religiosa attenção, a leitura que uma senhora joven e elegante lhes fazia das cartas, que ellas para esse fim lhe davam. A senhora estava montada, não como romantica amazona, em hacanêa fogosa, mas modesta e simplesmente n'um digno exemplar d'aquelles pacificos animaes, a que Sterne não duvidou dedicar algumas palavras de sympathia nas suas paginas mais humoristicas, e que Pelletan incluiu entre os collaboradores da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a periphrase, em uma possante e bem apparelhada jumenta.
Á roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade ás ancas e ao pescoço do immovel quadrupede.
A leitora segurava no collo a mais pequena e a mais nua das creanças do rancho.
Lia com voz agradavel e sonora; e, graças á serenidade da manhã e ao socego do logar, ouviam-se distinctas, á distancia que ficava Henrique, as palavras, que ella pronunciava lentamente, como para as deixar penetrar bem na intelligencia do auditorio.
Henrique reconheceu muita d'esta pobre gente, por a mesma que, momentos antes, vira na casa do correio.
Mas as suas attenções voltaram-se com especialidade para a leitora.
Era uma mulher muito nova ainda. Uma graciosa figura de mulher, suave, elegante, distincta, um d'esses typos que insensivelmente desenha uma mão de artista, quando movida ao grado da livre phantasia; a côr, essa côr inimitavel, onde nunca dominam as rosas, mas que não é bem o desmaiado das pallidas, encarnação surprehendente, a que ainda não ouvi dar nome apropriado.
Os cabellos em fartas tranças, em ondas naturaes, não de todo pretos, porém, mais distinctos ainda dos louros; a estatura esbelta, sem ser alta, o corpo flexivel, sem ser languido; um vulto de fada, emfim, com a magestade, com a graça que deviam ter estas creações da poesia popular, se fôsse certo tomarem a fórma de virgens, para matar de amores.
Não se concebe attenção tão distrahida, que esta mulher não fixasse; olhos, que se não voltassem para seguil-a, depois de a vêr passar; coração, que não se perturbasse na sua presença.
Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no collo e punhos apenas por collarinhos lisos. Descaía-lhe natural e elegantemente dos hombros um chale de casimira escura, sem lhe occultar as bellezas da airosa conformação; o chapéo de palha de largas abas, cobrindo-lhe a cabeça, espalhava pelo rosto as meias tintas, tão favoraveis ás bellezas delicadas.
Henrique comprehendeu logo a significação da scena, a que, tão inesperadamente, viera assistir. Aquella mulher parára alli, para ler a essa gente pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.
Tambem era caridade a acção, muito mais cumprida com o bom modo e com o carinho com que ella o fazia.
Henrique applicou a attenção.
—...«E por isso, minha mãe»—lia ella—«se Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa terra e darei remedio a tudo. E não me fale vossemecê mais em vender o cordão e as arrecadas. Diga ao senhorio que tenha paciencia, que eu satisfarei a tudo.»
Aqui a leitora parou para perguntar:
—Então que historia é esta das arrecadas, Anna?
—É, senhora, que o aluguer estava vencido...
—E não podia falar-me antes de se lembrar do seu filho?
—Ora, senhora, bem basta o que...
—Fez mal. Estar a affligil-o com estas coisas! Elle que precisa de toda a coragem!
E continuou a ler a carta, no meio das lagrimas e das expansões de alegria da ouvinte, mais interessada n'ella.
Acabando, deu um beijo na creança, que tinha ao collo, e estendeu a mão a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta era menos de consolar. Não se falava alli senão de contratempos, de revezes e desesperanças. Mais do que uma vez teve de suspender a leitura, para mitigar a dôr e enxugar as lagrimas, que ella estava produzindo na pobre mulher, a quem era dirigida.
Após esta, ainda outra e outra; uma do marido para mulher; outra de filho para mãe; outra de noivo para noiva.
Foi com o riso nos labios e inoffensiva malicia nas inflexões da voz e no olhar, que ella decifrou os mal legiveis caracteres, com que em papel bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados conceitos amorosos, que ainda dictou uma paixão.
A noiva córava, sorria; mas, no meio da sua modesta turbação, era evidente que estava exultando de jubilo.
Com esta terminou a leitura.
Henrique não resistiu a esboçar rapidamente o gracioso grupo na carteira, que trazia comsigo. Não pôde, porém, deixar de dar-lhe um sabor de idade média, substituindo a jumenta por um palafrem de pura raça e dando á donzella, pelos trajes com que a desenhou, os ares de uma castellã rodeada dos seus vassallos.
Não lhe bastou o natural do quadro, quiz revestil-o de um figurino de convenção. Perdôe-lhe a arte, que julgou servir.
Depois de distribuir mais alguns beijos pelas creanças, a gentil rapariga passou a que tinha no collo para os braços da mãe e partiu rodeada de agradecimentos e bençãos, perdendo-a Henrique de vista, por entre as arvores do caminho.
Aquelle typo delicado de mulher, aquella singeleza do apurado gôsto, em que não podiam enganar-se olhos conhecedores, como os d'elle, aquella preciosa perola alli na aldeia! em uma terra para chegar á qual era necessario fazer uma comprida e laboriosa jornada! D'onde viera ella e como? que nuvem a trouxera? que viração a transportára?
Em tudo isto ficou a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar alguem do grupo, já não ia a tempo; tinham dispersado.
Conseguiu finalmente passar para a deveza, e foi sentar-se no logar, em que lhe apparecera a visão e ahi se demorou algum tempo; mas lembrando-se de que eram quasi onze horas, levantou-se para não faltar ás promessas feitas á tia Dorothéa, e que eram: a de visitar as senhoras do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio dia, para não transtornar a regularidade dos habitos domesticos em Alvapenha.
Pediu pois a uma creancinha que passava, que o guiasse á quinta do Mosteiro, e ahi chegou depois de um quarto de hora de caminho.

IV

V

Por um homem, em quem predominasse a razão, Christina poderia vir a ser adorada; mas nas imaginações ardentes, nos corações inflammaveis, difficil lhe seria produzir alguma impressão duradoura.
Para bem se comprehender a belleza de Christina, era preciso sondar-lhe primeiro o coração, apreciar todo o thesouro de sentimentos que alli se continha; então descobrir-se-lhe-hia nas feições certa belleza ideal, reflexo de bondade e candura, uma d'essas claridades que as almas puras e generosas vertem nas physionomias. Se não fôsse receiar-me de linguagem que saiba a philosophia, diria que a belleza, que possuem umas mulheres assim, é uma belleza subjectiva.
De tudo isto é natural concluir que Henrique de Souzellas podia sympathisar com a candida figura de Christina, a qual baixava timidamente os olhos deante d'elle, córando cheia de enleio e confusão, mas que qualquer sentimento que ella lhe inspirasse, não conseguiria por muito tempo desviar-lhe o sentido dos encantos mais attrahentes da morgadinha—que a muitos respeitos, menos na bondade de coração, formava contraste completo com sua prima.
Travára-se animada conversação entre as pessoas presentes, e principalmente entre Henrique, D. Victoria e Magdalena.
D. Victoria quiz ser informada da doença de Henrique. Este passou a fazer-lhe uma exposição igual, com pequenas variantes, á que fizera á tia.
Mencionou, como a ella, aquelles vagos symptomas, aquellas tristezas, impaciencias e desalentos, que tão ingenuamente a boa senhora classificára como mania.
Emquanto Henrique falava, Magdalena poz-se a rir.
Henrique tornou para ella os olhos.
—Ó menina, de que ris tu?—perguntou D. Victoria, com certo tom de severidade.
—Rio-me d'aquella doença, tia. Pois já viu alguem padecer d'aquillo? Ora diga?
—Eu?... mas...
—Pode dizer que não. E comtudo o primo Henrique não mente. Ha d'aquellas doenças na cidade, ha; mas na aldeia são tão raras, que eu mesma as estranho já, eu que as vi em outro tempo...
—Então não crê na realidade d'ellas.
—Não lhes estou a dizer que sim? Ouço até que já teem levado ao suicidio. Acredito-o. Os habitos da civilisação affeiçoam a seu modo a natureza humana e criam molestias novas, que nem por isso são menos naturaes. Mas que quer, primo? A minha estranheza, ao vêr um d'esses doentes em plena aldeia, não é modificada por todas essas considerações. É como um homem de casaca e gravata branca; não ha nada mais sério e mais grave n'uma sala de baile, mas colloque-m'o n'um monte, e diga se o pode olhar a sério.
—Quer dizer que não devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem de mim.
—Tanto não digo; mas não o entenderão; isso não.
—Porém a minha doença não é só d'essas, que se não dão na aldeia, prima Magdalena; eu creio que verdadeiras desordens organicas...
—Ah! tambem?—Com esse aspecto de robustez?!...
—Se eu sei o que tu estás ahi a dizer Lena!—disse D. Victoria, que não tinha percebido bem o dialogo.
—É que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique todos os maus habitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso não pode curar-se.
—Sujeitar-me-hei da melhor vontade a tão agradavel dominio.
—Principia mal, se principia com uma fineza. Já o avisei ha pouco...
—Será necessario tornar-me grosseiro, para me salvar? N'esse caso renuncio á cura.
—Grosseiro, não; basta que seja razoavel e sobretudo...
—Acabe.
—Acabo? eu sei? Eu ás vezes sou sincera de mais.
—Eu adoro as sinceridades.
—Já que o quer... É preciso que seja razoavel e sobretudo... desaffectado.
Henrique de Souzellas mordeu ligeiramente os labios, córando.
—Então acha?...
—Acho que está sempre a imaginar-se n'um salão; faz uns gastos de galanteria, desnecessarios e perdidos.
—Ó meninos, eu não vos entendo—repetia D. Victoria.
Magdalena sorriu.
—Digo eu que...
Um criado entrando com as cartas do correio não a deixou continuar.
—Sempre chegou o correio!—exclamou Magdalena com vivacidade, recebendo as cartas.—Por que veio tão tarde?
—A mulher contou-me lá umas historias de uma quéda, e...
—Coitada! Aconteceu-lhe algum mal?
—Esteja descançada, minha senhora. Ella partiu já e era um gôsto vêl-a a correr.
Magdalena abriu com pressa a carta recebida.
—É de meu pae—disse ella, olhando-lhe para a lettra e, depois de pedir licença, começou a ler para si.
—Pois agora—dizia, n'este meio tempo, D. Victoria a Henrique—o que deve é aproveitar estes bonitos dias para dar alguns passeios. As pequenas acompanham-n'o. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir, Christina?
—Eu! disse Christina, córando.
—Tu, sim, menina. Inda hontem me falaste n'isso. Ora onde era?...
—Á Senhora da Saude, mamã.
—Ai, é verdade, á Senhora da Saude. Ahi está já um passeio bonito. Vê? Saem d'aqui uma manhã cêdo, levam alguma coisa para lá comer, porque o ar do monte abre o appetite, e a cavallo estão lá n'um instante...
—A cavallo, mamã! d'aqui á Senhora da Saude? Ora! Vae-se muito bem a pé—notou Christina do lado.
—Isso é por os açudes.
—Pois por onde haviamos de ir?
—Por a Granja, que é melhor.
—Por a Granja! É uma legua!
—Que tem? mas escusam de trepar como cabras por o lado dos açudes, que é até perigoso; e depois para que hão de ir a pé, se para ahi estão os cavallos sem fazerem nada? É vontade de se cançarem.
—Mas appetece ainda mais n'este tempo. Só se... só se alli o sr. Henrique...—disse Christina, embaraçada ao continuar.
—Eu o quê, minha senhora?
—Perdão—interrompeu D. Victoria.—Por que não has de tu chamar primo ao primo Henrique? pois não chamamos tia á tia Dorothéa?
—Por isso mesmo, mamã,—respondeu Christina—os sobrinhos da tia Dorothéa não são...
—Não averiguemos d'esses parentescos, priminha,—acudiu Henrique—eu acceito a proposta da mamã, peço para ser considerado do numero de seus primos.
Christina baixou os olhos, sorrindo.
Henrique proseguiu:
—Mas parece que receiava por mim, quando falou em ir a pé á Senhora da Saude. Não sei onde é o logar, mas desde já me comprometto a não cançar.
—Não tem que saber—disse D. Victoria, caminhando para uma janella.—Ella lá está. Olhe que inda é necessario saber trepar.
—Tendo duas tão galantes companheiras de viagem—tornou Henrique, depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma distancia d'alli, o mesmo que o almocreve lhe mostrou—parece-me que daria a pé uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.
—O que eu lhe digo, primo—accrescentou D. Victoria—é que se acautele, porque se lhes vae a fazer todas as vontades, tem que vêr.
—Inda que morresse em tão agradavel serviço, teria de agradecer a Deus a morte.
—Cá me chegou aos ouvidos o cumprimento—disse Magdalena, que continuava a ler.—Logo ajustaremos contas.
—É implacavel esta nossa prima, não acha?—perguntou Henrique, sorrindo, a Christina, que por unica resposta só soube sorrir tambem.
—Pois então, é arranjarem, é arranjarem isso e quanto antes, que não ha que fiar no tempo. Eu se pudesse tambem ia, mas já não são passeios para mim, e depois estes criados...
Henrique de Souzellas receiou nova divagação sobre o assumpto predilecto de D. Victoria; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha, que disse, terminando a leitura da carta:
—Escreve-me o pae que tenciona vir passar comnosco as ferias do Natal e trazer Angelo comsigo. Promette demorar-se até o dia dos Reis.
As creanças saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem inveja a um clown de circo.
D. Victoria zangou-se.
—Então que pouca vergonha é essa? Parecem-me um bando de patetas! Ora vamos! Já quietos. A culpa tem a Ermelinda, que já vos devia ter levado para a quinta. Ó Senhor, esta praga de criados, que nunca ha de fazer a sua obrigação!
As creanças reprimiram um pouco mais as expansões de seus jubilos, mas ainda ficaram cantando a meia voz, em musica de composição d'ellas, o seguinte:
—Vem o primo Angelo! Vem o primo Angelo! Ora viva, viva! Ora viva, olé!
—Pschiu! Calae-vos!—bradou ainda D. Victoria; e voltando-se para Magdalena:—Mas então como se entende isso, Lena? Então o pae diz que vem...
—Nas vesperas do Natal.
—Sim, nas vesperas do Natal, e vae...
—Depois dos Reis.
—Sim; está bem; e... sim... e então o Angelo?...
—O Angelo vem com elle. Quer vêr a carta?
—Não, menina. Mas é preciso não fazer confusão... Então...
—Não ha nada menos confuso... É só isto.
—Sim; pois agora, sim; agora está bem claro. Calae-vos, diabretes! Ó meu Deus, que consumição! Mas então por que não entregou o criado ha mais tempo essa carta? Eh! não que vocês dizem que elles...
—Ó tia, pois não ouviu que foi a mulher das cartas que se demorou, porque...
—Historias! Não me venham para cá com esses contos. Vocês estão sempre promptos para desculpal-os. São elles...
—Ó Lena, Lena—diziam as creanças—o primo Angelo não torna para Lisboa?
—Ha de tornar.
—Ora!
—Olha lá, ó Lena—disse D. Victoria—sabes tu o que me lembra?... Mas eu nem sei... com estes criados que tenho... Mas a mim lembra-me... uma vez que teu pae vem com o pequeno... e... está agora cá o primo Henrique... lembra-me a mim... mas, já digo, era se eu pudesse contar com os criados que temos... lembra-me, juntarmo-nos todos para consoar... A prima Dorothéa tambem, e aqui o primo; mas era se...
Uma perfeita ovação acolheu o projecto; as creanças levaram as suas demonstrações de enthusiasmo até o delirio, penduraram-se ao pescoço, á cinta, ao avental da mãe, gritando todas a um tempo:
—Ai, sim, mamã, sim; mande convidar a tia Dorothéa, mande! E ha de ficar em casa, sim? Olhe e... e arma-se o presepe... e... e... e havemos de cantar as janeiras... Mande, mande, mamã, por as alminhas; ora mande.
D. Victoria fingia arrenegar-se com aquella pequenada, e erguia o braço, como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe o riso dos labios.
—Saiam d'aqui!—exclamava ella, quando conseguiu estar séria.—Saiam!... Não ouvem?... Espera que eu vos falo... Ai, não fazem caso? Ora esperem... Marianna, já devias ter mais juizo... Então, Eduardo! Tu tambem? Não tem vergonha! Um homem quasi! Saiam d'aqui, estafermos!
A ideia das consoadas em familia fôra uma ideia que a ninguem deixára impassivel. Christina, a timida Christina, não disfarçou um movimento de jubilo; as mãos ajuntaram-se-lhe instinctivamente, e raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.
A propria Magdalena não se mostrou superior áquella tocante puerilidade.
Approximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe affectuosamente:
—Ora ahi está o que é muito bem pensado.
—Pois sim, sim, mas o peor é... os criados—disse D. Victoria.
—Quem fala n'isso? Na noite de Natal quem mais trabalha somos nós. Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia Dorothéa.
—Isso é que é a perola das criadas! Oh! aquella prima Dorothéa, aquella sua tia, primo Henrique, é que teve felicidade! Mas dizes tu... Bem se importam os de cá com a Maria.
—Não tem dúvida. N'aquella noite quanto mais barulho e desordem, melhor—aventurou-se a dizer Christina, com impeto revolucionario.
—Ahi temos outra! Não, filha; isso é que não. Para barulhos é que eu já não estou. Então, não.
—Está resolvido—disse a morgadinha, para cortar pelas divagações da tia.—Aqui o sr. de Souzellas—accrescentou, com maliciosa inflexão—fica desde já encarregado de transmittir á tia Dorothéa o nosso plano e, ao mesmo tempo, officialmente convidado.
—Acceito da melhor vontade.
—Não sei se o deverá dizer. É preciso que o avise de que n'aquella noite todos teem de trabalhar na cozinha; a ninguem se dispensa, um minuto, pelo menos, de collaboração nos guisados. Por isso veja lá....
—Ó menina, tens coisas!—disse D. Victoria.—Deixe-a falar, primo.
—Não é deixe-a falar. Eu não dispenso ninguem.
—E eu prometto não me recusar. Promptifico-me a tornar detestaveis os pratos em que puzer a mão. Que mais querem?
Foi alegremente acolhida a promessa.
As creanças, familiarisadas já com Henrique, em quem tinham adivinhado um humor jovial, o que é sempre para ellas um motivo de attracção, trepavam-lhe já aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas, difficultando-lhe as respostas.
—Havemos de jogar o rapa, não havemos?
—Havemos de jogar, havemos—respondeu Henrique.
—E o par ou pernão?
—Tambem; tambem havemos de jogar o par ou pernão.
—E?...
—Tudo, tudo; havemos de jogar tudo.
—Olhe: e sabe contar historias?
—Sei tambem contar historias.
—Então ha de contar-nos, que nós tambem lhe contamos a da Gata borralheira, a da Maria de pau e a da Menina com as tres estrellinhas na testa.
—Ora, o sr. Henrique já as sabe—disse, fazendo-se sisuda, Marianna.
—Pois não sei, não, senhora; quem lhe disse que eu as sabia? hei de querer ouvir isso tudo.
—Ó meninos!—exclamou D. Victoria, que até alli estivera distrahida a discutir com Magdalena.—Então isso que é? Já para baixo. Ai, se lhes dá confiança, está arranjado, primo.
—Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias é salutar; pegam-se.
—E não o diga a brincar—disse Magdalena—que tambem confio n'essas creanças para o curarem dos seus males.
—Então devéras emprehendeu curar-me?
—Com toda a certeza.
—N'esse caso havemos de discutir devagar esse ponto de pathologia.
—Não havemos, não, senhor. É mau medico o que soffre que o doente o interrogue sobre a molestia e o tratamento. O medico deve ser obedecido com fé, e cega.
Christina que, havia muito, defronte de Magdalena, fazia esforços por lhe chamar a attenção, resolveu-se a falar-lhe.
—Lena—disse ella—que te parece a lembrança que teve ha pouco a mamã?
—A das consoadas? Excellente.
—Não, menina, a do passeio á ermida.
—Ah! Excellente tambem. Marquemos já o dia.
—Quando queres?
—Depois de ámanhã, que é quinta feira.
—Seja.
—Que diz, primo Henrique?
—Quando quizerem, primas; agora mesmo...
—Mas, veja lá, atreve-se a fazer uma madrugada?
—Pois não viu hoje?
—Ai, pois não! Na aldeia não se chama isso uma madrugada. É preciso que se levante ás horas, a que se deitava na cidade.
—Que estás a dizer, Lena?—acudiu Christina.—Deixa-a falar. Basta que saiamos d'aqui ás cinco horas.
—Esta innocente Christina! Pois não é o mesmo que eu digo? Pergunta ao primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cêdo em Lisboa.
—Engana-se, prima Magdalena; lembre-se de que, ha perto de um anno, sou valetudinario.
—Ai, é verdade, que me tinha esquecido. O que vejo é que ha por aqui muita indolencia.
—Quem a ouvir falar, ha de julgar que será ella a mais madrugadora; ora havemos de vêr—disse Christina.
Magdalena poz-se a rir.
E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse Augusto, por ser conhecedor do sitio e poder mostrar os mais bellos pontos de vista.
Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, já retardado uma boa hora ao que promettera á tia Dorothéa.
Um criado serviu-lhe de guia até Alvapenha.
Henrique de Souzellas, ao findar aquella manhã, era inteiramente outro, do que viera para a aldeia. Todas aquellas horas se haviam passado, sem que o affligissem os males habituaes, sem que nem sequer pensasse n'elles. O viver intimo a que assistira, a troca reciproca de affectos entre os membros de tão numerosa familia, a franqueza cordial com que fôra recebido, produziram n'elle uma impressão profunda.
Costumado ao viver desconsolador e de gêlo de rapaz solteiro e só; não passando, nas casas que visitava, além da sala de visitas, esse palco artificioso e reservado, onde as familias ante as familias representavam a comedia social, Henrique estranhára, mas agradavelmente, o espectaculo, quasi novo, d'aquelle interior, d'aquelles modestos costumes, d'aquellas alegrias, que não se envergonham de apparecer sem reservas nem disfarces. Foi uma revelação que recebeu. Sorriu-lhe a ideia de ter um dia uma familia assim; de viver entre creanças que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de affectos, que alli via manifestarem-se, e até com alguem que ralhasse com os criados, á maneira de D. Victoria.
Escusado é dizer que a imagem da morgadinha apparecia sempre n'estes quadros que lhe traçava a phantasia: assim como, nos quadros dos grandes mestres, apparecem quasi sempre reproduzidas as feições queridas da mulher que elles traziam no pensamento e a quem deram assim a immortalidade.
De manhã parecera-lhe a aldeia um paraiso terreal; completára-o a figura de uma mulher; sem o sorriso d'ella nem o primeiro homem seria feliz no eden, onde a mão de Deus o collocára.
—Anda, vagaroso, anda—disse D. Dorothéa a Henrique, assim que o viu chegar.—Se o jantar tiver esturro, a culpa é tua.
—Perdôe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro...
—Ah! foste lá? E então gostaste d'aquella gente?
—É uma familia para o coração. Passa-se o tempo alli tão depressa! A morgadinha, sobretudo, é adoravel!
—Ai, ai; como elle nos vem! Olha lá no que te mettes, menino! A mina boa é, mas... filho, anda alli encanto, que ainda ninguem descobriu.
Henrique fitou os olhos na tia Dorothéa, que dissera isto com certa malicia.
—Que quer dizer, tia?
—Tu bem me percebes. Anda lá, anda. Se fizesses tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande coisa seria; mas sempre te digo que não tomes a coisa a peito, que podes aggravar o teu mal.
Henrique levou o caso a rir, mas é certo que esteve um pouco mais preoccupado e distrahido no resto da tarde.

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