Para livrarem seus filhos
Da morte dos innocentes,
Dos braços faziam cruzes
Aquellas mães impacientes.
XIV
Ó infante suavissimo,
Vinde, vinde já ao mundo
Livrar-nos do captiveiro
D'este jazigo profundo.
XV
Para o quintal, que a abundancia das arvores de espinho fazia sempre verde, abriam-se as janellas da pequena e humilde saleta, onde o herbanario se entregava ás suas leituras e lucubrações scientificas. Logo ao pé da porta se estendiam o jardim, em parte de recreio, pelas flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas simplices medicinaes, de virtudes mais ou menos problematicas, que o velho n'elle cultivava.
Vicente tinha entranhada a paixão vegetal, deixem-me assim chamar-lhe. Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus fructos e pelos poderes curativos que lhes attribuia. E como se ellas possuissem a responsabilidade dos effeitos produzidos, assim lhes queria e as amimava, quando salutares; assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas. A vida isolada e o genio do velho, que sempre fôra dado a singularidades, augmentaram estas disposicões, que tinham o que quer que era de pantheistico; e não era raro surprehenderem-o conversando com ellas, como se convencido de que o estavam comprehendendo.
A borragem, a salva, a fumaria, a herva terrestre, a herva moura, os trevos, os geranios, as papoulas, as violetas, tão boa camaradagem lhe faziam, que nem lhe deixavam sentir a solidão.
O herbanario não tinha pessoa alguma ao seu serviço. Elle proprio cozinhava e por suas mãos fazia todos os mesteres domesticos.
É pois de imaginar que não seria muito complicado o banquete das consoadas n'aquella casa, e que devia formar em tudo contraste com o que á mesma hora se celebrava no Mosteiro.
De feito, quando alli eram mais ruidosas as conversas e mais espontaneos os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena mesa circular, solemnisavam n'aquella modesta sala o santo anniversario. Um era o proprietario da casa, o outro Augusto, um dos poucos que se atrevia a frequentar áquellas horas mortas a habitação do velho.
Além da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, maçãs, nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na confecção da qual o herbanario era eminente, e uma garrafa de vinho do Porto de promettedora côr de topazio, consistia o resto da mobilia n'uma estante de pinho, vergada sob o peso de in-folios de grossas encadernações e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e bancos tambem occupados com livros e com varios utensilios empregados nas explorações scientificas do velho, taes como caixas de lata, frascos, martelos, foicinhas, limas, os quaes ainda sobravam para alastrarem o chão.
Todo o recinto era apenas alumiado por um candieiro de azeite, e a escassa luz, que dos tres lumes que, em attenção á solemnidade da noite, o velho accendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Christo de marfim pendente de um crucifixo negro, que sobresaía n'aquellas paredes nuas e caiadas.
Havia bastante tempo que aquelles dois homens, sentados defronte um do outro, guardavam silencio; um d'esses silencios, durante os quaes os espiritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se desembaraçado d'ella, voam a par, para adeantarem caminho e voltarem mais longe a associarem-se á sua mais lenta companheira.
Augusto, com os olhos fixos na luz que illuminava a scena, parecia alheio a quanto o rodeava.
O herbanario, sem desviar os olhos d'elle, com o braço estendido para o calice que tinha defronte de si, e a cabeça inclinada, parecia espiar, um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar n'elles os pensamentos que o preoccupavam. Emfim rompeu o primeiro o silencio:
—Pobre rapaz! Dize-me para ahi tudo o que tens. Para que te mettes a esconder de mim aquillo que eu ha tanto te leio nos olhos, creança?
—O quê, tio Vicente?—perguntou Augusto, inquieto.
—O quê?! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar o coração: são dons do Céo, que se pagam caro e com lagrimas, rapaz. Bondade de coração, com a cabeça... assim, assim... a dar esmolas aos pobres se satisfaz; cabeça de fogo, mas coração de gêlo... todos os meios de levar ao fim ambições, tanto os bons como os maus, todos lhe servem; mas coração como o teu, com o espirito que tens!... ai, pobre Augusto, se se escapa ao infortunio, é por milagroso poder do Senhor.
—Não o entendo, tio Vicente,—disse Augusto, com manifesta confusão.
—Não! Olha para mim. E vê se te atreves a repetil-o.
Augusto baixou a cabeça.
O velho sorriu com ar de commiseração e sympathia.
—Tu ainda não sabes fingir. Vamos lá; e cuidas que me não havia de custar, se não tivesse acertado?—E, depois de breve pausa, continuou:—Mas ainda quando penso em como tu, uma cabeça forte, assim te deixaste enfeitiçar!...—E tomando o calice, que tinha defronte de si, disse com resolução—Quero beber á tua saude, Augusto, e para que em breve se te desfaça essa loucura.
Quando ia a levantar o calice aos labios, a mão de Augusto susteve-lhe o braço.
—Não beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ella. Sou feliz assim.
—Ah!—disse o velho herbanario, tomando um ar mais grave; e pousou o copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo.
Augusto, depois de um curto silencio, proseguiu com maior vehemencia e colorindo-lhe as faces um não costumado rubor:
—Sim. Por que o não hei de confessar? Essa loucura que diz, trago-a commigo, vivo com ella e quasi que para ella. Quero-lhe assim, e não a desejaria perder. Amor? não é; a tanto não chega... antes um culto, isso sim. É uma adoração como aquella, em que de pequenos nos educam para com a Virgem. Que esperanças tenho? Nenhumas. Nem procuro alimental-as. Quer que lhe diga? Vêl-a; respirar estes ares que ella respira; atravessar estas devezas em que ella passeia; amimar as mesmas crenças que ella amima; soccorrer, com o meu óbulo de pobre, a miseria sobre a qual ella espalha caridosa as dadivas da sua abençoada opulencia... e, ahi está; são as minhas aspirações; é o futuro que desejo, e com que me contento. Leu no meu coração, disse; e ha muito que m'o dá a entender; mas não viu claro de todo, confesse. Julgou talvez que haveria em volta d'este sentimento um enxame de esperanças loucas, e d'ellas se ria. D'ellas por certo foi que se riu; é muito generoso para se rir do mais. Enganou-se, porém, tio Vicente; vê agora que se enganou, não é verdade? Essas esperanças não existem. Se existissem, bem vê que não estaria aqui. Não me teria impellido a ambição pelo caminho de realisal-as? Não se me teem offerecido os meios para tental-o? Mas, veja, quero-lhe tanto, e tanto me satisfaz esta felicidade a meu modo, que não arrisco um instante d'ella para tentar uma ventura maior.
O herbanario escutava silencioso, porém meneando a cabeça com ares de quem não punha demasiada fé n'aquellas palavras.
—Aos vinte annos!...—disse elle por fim—sentir o que dizes... ser feliz assim!... Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo á paixão e verás... verás depois...
—Tem dez annos—disse Augusto, sorrindo.
—Dez annos!
—É verdade. De creança a conheço, a paixão que diz; por isso confio n'ella. Tenho fé em que se não transviará.
—Dez annos!—repetia o velho, admirado.—Porém... ha dez annos...
—Ha dez annos saí eu d'aqui, tio Vicente. Não se lembra? Era então uma pobre creança da aldeia, educada entre os braços de minha mãe, e conhecendo, uma por uma, as arvores d'estes sitios e mais nada. Saí d'aqui e fui para Lisboa. Não imagina as fortes impressões que recebi na noite que alli cheguei. Nunca a historia mais maravilhosa de fadas e de encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria a imaginação assim! Tudo era novo para os meus sentidos. O rumor, as luzes, os palacios, os edificios, os carros produziam-me quasi uma vertigem; sentia-me vacillar. Achei-me, nem sei bem como, de tão atordoado que ia, n'uma casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia, n'aquella noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de creanças, muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembleia á parte. A sala era magnifica; muitas luzes, muitos espelhos, muitas flores, moveis dourados, tapetes, quadros, crystaes, e para acabar de me confundir, o piano, objecto novo para mim, e que eu me não fartava de admirar. Tudo isto me perturbava, como imagina, e por fôrça me havia de dar uns ares de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com affecto; deu explicações ás pessoas presentes a respeito da minha vida, e deixou-me entregue ás creanças. Ahi fiquei eu, bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta mal talhada, o meu olhar timido, os meus modos acanhados, no meio de uma turba de creanças elegantes, que se me figuravam de uma essencia superior á minha. As creanças são desapiedadas, quando assim em companhia. Cêdo percebi que estava sendo o alvo da zombaria d'ellas; riam ao principio com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de relance; redobravam as risadas e transmittiam reflexões a meu respeito, cujo sentido julguei adivinhar. Depois dobrou a ousadia n'ellas, dirigiram-me ditos, gracejos, cada vez menos disfarçados; formaram grupos em volta de mim; se eu falava, respondiam-me rindo. Então apoderou-se de mim um profundo desalento, comprimiu-se-me o coração de tristeza. Lembrei-me, com saudades, das arvores da minha aldeia, do meu pobre quarto, de minha mãe; e achei-me alli tão só, tão sem conforto nem amizades, que as lagrimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje não hesito em dizel-o, foi aquelle um dos mais amargos momentos da minha vida. Nós, quando adultos, esquecemos facilmente os martyrios da infancia, quando n'esta idade uma sensibilidade exaggerada tão dolorosos os faz. Foi então que se deu um facto que, na minha piedosa superstição de rapaz aldeão, quasi me pareceu de intervenção divina. Abriu-se a porta e entrou na sala uma creança, que eu não tinha ainda visto. Era uma menina pallida, de gesto affavel e angelico. Vestia toda de branco. Entrou e approximou-se do conselheiro, que jogava com uns amigos. O conselheiro, depois de beijal-a, não sei que lhe disse ao ouvido. Ella correu então a sala com a vista; viu-me e veio direita a mim.
—Não conhecias já da aldeia, Magdalena?—perguntou o herbanario.
—Não; minha mãe veio para aqui no anno em que, por morte da sua, Magdalena voltou a Lisboa. A affabilidade, a singeleza desaffectada com que me falou, causou-me um allivio ineffavel. Ainda hoje sinto como que os reflexos d'aquella suave impressão. Parecia-me ouvir a voz de minha mãe; tinha o timbre da sympathia. Encheu-se-me logo de confiança o coração. Com ella não senti mais aquelle acanhamento que me enleiava. Depois falava-me de coisas que eu sabia tão bem! Perguntava-me a respeito dos campos, das arvores, das abelhas, dos ninhos dos passaros, das flores, dos trabalhos do linho... interrogando-me e escutando-me com tanta deferencia e attenção, que me inspirava coragem, e julgo que me estava dando ares de mais importancia junto d'aquelles pequenos senhores e senhoras que, pouco a pouco, se fôram despojando dos seus desdens e acabaram por me escutar e interrogar tambem com curiosidade. Já uns me lançavam os braços ao hombro, outros formavam circulo em volta de mim, e cêdo fui eu a principal personagem d'aquella noite. Essa creança...
—Era Magdalena; adivinhal-o-hia agora, se já o não soubesse. Não podia deixar de ser ella—exclamou o herbanario, com um fulgor de sympathia a illuminar-lhe o olhar.—Era ella; sempre assim foi!
—Era. Esta scena pueril teve uma grande influencia no meu espirito. Hoje ainda, se penso n'ella, acho-a de uma grande significação moral. Pois não é mais apreciavel n'uma creança esta prova de superioridade de caracter, do que nas idades em que muitas vezes a razão e o calculo a impõem a uma indole naturalmente pouco generosa? Alli era tudo espontaneidade. Desde então a adoro.
O herbanario parecia não ter já animo para sorrir.
—Agora vejo por que trouxeste da cidade aquella grande tristeza. Tão novo!
—É verdade. Foi esse o motivo. Magdalena foi sempre para mim affavel; inclinava-se sobre o livro em que me via estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos da minha educação aldeã, e, se reconhecia progressos no discipulo, manifestava uma alegria que era para mim o maior incentivo e o maior premio. Fiz os exames. Quando voltei a casa, Magdalena com certo ar de gravidade, que aquella creança já então tomava, perguntou-me, no meio de uma conversa propria de creanças: «E sente-se com genio para ser padre, Augusto?» Já me não lembro do que lhe respondi. Trouxe porém commigo aquella pergunta; trouxe-a para a solidão da minha aldeia. Procurei cerrar os ouvidos á voz interior, que desde então m'a repetia sempre, até junto da cabeceira de minha mãe, cuja maior aspiração era, como sabe, vêr-me padre. Mas em vão! foi desde então uma dúvida constante com que luctava. Com a morte de minha mãe tudo mudou. Pela primeira vez respondi á interrogação, que havia tanto tempo dirigia a mim proprio, e consegui por fim responder: «Não». Eis o segredo do meu passado.
—E por que disseste «Não»?
—Porque vi que toda a minha vida era para a consagrar a um sonho; que o sonharia no altar, no pulpito e no confessionario; que para toda a parte me seguiria a imagem, a que eu já não podia renunciar, e a qual então já não contemplaria sem remorsos, como agora o faço. Foi por isto.
—Só? Não te illudirás a ti mesmo, Augusto? Repara bem, que n'isso pode ir a tua felicidade! Estás bem certo de que não ha uma esperança dentro do teu coração?
—Se a tivesse...
Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua. Cêdo batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fóra:
—Está acordado ainda, tio Vicente?
O herbanario trocou um olhar com Augusto. A voz era de Magdalena.
Augusto ergueu-se com presteza. O herbanario quiz retêl-o.
—Onde vaes?
—Deixe-me sair. Não poderia vêl-a agora. Não estou preparado com a minha indifferença.
—Pobre mascara!—N'esse caso sae pelo quintal.
—Tio Vicente!—repetiu Magdalena, de fóra.
—Eu vou, minha ave nocturna; eu vou já. Espera—continuou em voz baixa para Augusto:—dá-me a tua palavra que não escutarás.
—Dou; mas... promette que nada lhe dirá?
—Eu?!... Louco! Assim te pudésse fazer esquecer, quanto mais... Adeus!
Depois de assegurar-se de que Augusto saira pelo lado do quintal, o herbanario foi abrir a porta da rua á morgadinha.