Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.
—Olhe o que é a educação—insistiu Thomé.—Quem ha de dizer que foi nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda um pouco peior do que hoje?!
—Ah! sim… a educação… vale muito, mas é preciso que os dotes naturaes a auxiliem—murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o assumpto da conversa.
—Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda… Mas o que ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!
Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a
Jorge, que nada respondeu d'esta vez.
Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr aquella noite, e por isso abriu a sessão.
Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.
Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto. Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.
Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos amores de Paulo e Virginia.
Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.