—Não é terror tragico, é desgosto. Eu bem sei que são usuaes esses galanteios que dizes, essas falsas ostentações de amor, com as quaes se profana e desprestigia tudo quanto ha de mais sancto e respeitavel no coração do homem. Ás vezes succede, é verdade, que uma das partes interessadas, talvez por andar alheada dos negocios terrenos, como dizes, entra com a alma n'essas comedias sociaes, e quando a scena finda, muito a bel-prazer do outro actor e sob os applausos dos espectadores que riem, essa alma sente-se ferida de um golpe mortal. As illusões da mocidade, o suave perfume de um affecto virginal, as primicias de um amor casto, tudo se desvanece n'estas profanações, e não sei que haja espirito tão leviano que ouse tentar a representação d'estas comedias ridiculas e ao mesmo tempo perversas com uma pessoa a quem se devem affeições leaes e respeitos.

—Mas…

—Em uma palavra, Bertha é a filha de um homem honrado; Bertha era a amiga e a companheira de Beatriz e muitas vezes se sentou comnosco á mesa, a que presidia nossa mãe, que a abençoava, quando nos abençoava a nós. Não te lembras d'isso?

—Lembro, e por isso mesmo a amo. Não te disse que havia entre nós recordações de infancia?

—Amas!—exclamou Jorge com uma impaciencia, a que era pouco sujeito.—Que amor! Um amor de que fazes confidentes os primos do Cruzeiro, que sabes tractarem irreverentemente todos os amores, um amor que ostentas sem recato, chegando a sujeitar á apreciação cynica d'esses doidos a mulher que dizes objecto d'elle, um amor que não procuras occultar com aquelle casto e natural pudor de uma alma devéras apaixonada. Que amor esse que apregoas sem escrupulos nem reservas diante de quem quer que seja!

—Mas… como imaginas tu então que se ama, quando se ama devéras? O systema da publicidade applicado ás paixões não será antes uma garantia da boa natureza d'ellas?

Como se nem tivesse escutado estas palavras, Jorge, acelerando um tanto a rapidez dos seus passos, proseguiu com exaltação crescente:

—Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma d'estas paixões unicas, dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo; mas ás vezes tenho pensado n'isto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor, se o sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de todos os olhos essa paixão; desejaria que ninguem m'a suspeitasse nem por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos fallar sequer na mulher que eu amasse, ferir-me-ia como uma profanação. Não escolheria confidentes, a ninguem revelaria esse segredo da minha alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria este amor seria o poder dizer, quando estivesse só, ninguem no mundo sabe, ninguem suspeita este mysterio do meu coração, senão ella. Para ella só, para essa mulher que eu amasse quereria reservar todas as manifestações dos meus sentimentos, as mais serias e as mais pueris, pertenciam-lhe; e permittir que outros as percebessem era profanar o culto. Só com ella, sim, todas as reservas acabavam; então no gesto, na palavra, no olhar revelaria inteira a minha alma, sem mysterio nem discrição. Aspiraria assim n'esses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o mundo, ao vêr-me frio e concentrado, pensasse: «Ahi está um homem de gêlo, este não sabe amar», e que ella só pudesse dizer: «Oh! eu é que sei de que extremos é capaz aquelle amor que ninguem suspeita.»

Mauricio estava maravilhado de ouvir Jorge, que parecia dominado por uma excitação nervosa, ao fallar assim, mais para si do que para o irmão.

Taes expansões eram raras em Jorge e esta era a mais vehemente e completa que o irmão presenciára.