O vestuario preto de que usava, sobre o qual sobresahia a gravata cuidadosamente lavada e engommada, augmentava o effeito natural dos seus dotes physicos.
O procurador formava inteiro contraste com o fidalgo. Curvado, olhando por cima dos oculos, com o lenço constantemente empunhado para acudir ás instantes reclamações de um defluxo chronico, parecia dominado por uma infantil timidez, mas não perdia um só gesto dos outros, que manhosamente observava.
A baroneza inclinou-se para beijar a mão do tio, que a acolheu nos braços.
—O tio Luiz!—dizia a gentil viuva, olhando-o—sempre o mesmo! Não o acho mudado.
—Não?!—disse o fidalgo com leve ironia na intonação e no sorriso.
—Olhe que não. E é natural. Bem vê que se golpes dolorosos o teem feito padecer, tambem lhe servem de conforto o socego d'estes sitios, a pureza d'estes ares, a tranquillidade d'esta vida e o affecto dos filhos que ainda lhe restam.
D. Luiz abanou a cabeça, mais triste e sombrio do que antes.
—Na sua idade, Gabriella, cicatrizam depressa as feridas. Quando se chega aos meus annos, golpe que se receba, é ferida com que se morre.
—Diga o snr. D. Luiz—interveio o padre—que o que tem é muita resignação christã, que n'estes tempos que vão correndo não é coisa vulgar.
E assuou-se.