Ordenou que, embora á custa de qualquer sacrificio, se celebrasse a chegada da sobrinha, segundo o velho estylo, convidando-se para jantar os representantes da mais preclara nobreza dos arredores.

Ainda que a tristeza e misanthropia, de que era victima, o trouxessem, havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras épocas, o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se á impertinencia de lhes abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pratica que lhe impunham os brios de fidalgo creado nos habitos de grandeza e liberalidade de um solar de provincia.

Jorge tentára ainda oppôr algumas sensatas reflexões a esta dispendiosa exhibição de uma opulencia mentida; mas encontrou o pae inflexivel.

Frei Januario, que antevia a perspectiva d'um d'aquelles regalados jantares, que se tinham ido com os dizimos, com os foraes, com as luctuosas, com os conventos, com as milicias e com muitas outras coisas igualmente despertadoras das suas clericaes saudades, frei Januario, dizemos, sentia em si uns jubilos de criança, que nem podia nem procurava disfarçar.

Eloquente como nunca, corroborou a opinião do fidalgo, fazendo-lhe bem sentir o deslustro que soffreria o brazão da casa se não se observassem essas praticas senhoris dos tempos passados, e dando como faceis de aplanar todas as difficuldades que, á primeira vista, apresentava o projecto.

A Jorge, que lhe suscitava algumas objecções, o egresso sómente respondia:

—Tenha paciencia, snr. Jorge, a nobreza obriga!

—Obriga a ser nobre, que é ser leal, sincero, honrado, sem affectação, sem prodigalidade, e sem sumptuosidades que se sustentem á custa alheia.

—Á custa alheia?!

—Emquanto esta casa tiver uma divida é á custa alheia que vive, gere dinheiro de outros e não lhe é airoso gastar em festas e banquetes o que precisa para remir-se primeiro e para prosperar depois.