O titulo de baroneza raros o concediam a Gabriella, porque era de origem suspeita para aquelles pechosos aristocratas.
D. Luiz respondeu com um forçado sorriso aos comprimentos, dizendo:
—Devem procurar-se as distracções, quando o espirito não se dá bem com as ideias tristes. Mas isso não succede commigo. Já não posso viver sem esta escura companhia dos meus pensamentos. O esforço para fugir-lhe mais me afflige.
—Ora essa! Sentir-se um homem bem com a tristeza! Ora essa!—estranhou o ex-miliciano.
—São contradicções apparentes—disse Gabriella para o tio.—As saudades teem d'isso. Por isso lhes chamaram «gosto amargo e pungir delicioso.»
—Quem é que lhes chama isso?—perguntou uma fidalga de oculos, um pouco sentimental e litterata, que estava ao pé de Gabriella.
—Foi Almeida Garrett—respondeu esta, sorrindo, como quem suspeitava que não ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante.
Effectivamente a historia litteraria de Portugal parára para ella em
José Agostinho de Macedo.
—Almeida Garrett!!—repetiu um dos mais intractaveis realistas presentes que ouvira a resposta—eu conheci um d'esse nome, que era secretario ou coisa assim do duque de Palmella n'aquelles bons governos do Porto em 1834, isso era um liberalengo dos quatro costados.
Na linguagem pittoresca d'este sujeito, a palavra liberalengo era a mais eloquente expressão com que s. exc.ª conseguia traduzir todo o desprezo que lhe mereciam as ideias e os homens de 1820 e 1832.