XVII
Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza.
A indignação de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas paixões paternas, quasi lhe censurára a precipitação do passo que déra.
Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. Não podendo já duvidar da innocencia do irmão; como perdoaria a si proprio as suspeitas e insultos com que o ferira?
Do vão da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa.
Mauricio ergueu emfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestigios de lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava, caminhou agitado para Jorge.
—Jorge—disse elle, intima e sinceramente commovido—se ainda se não esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a affeição, que por tanto tempo te mereci.
Jorge apertou-lhe a mão com affecto.
—Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crêl-o. Affligem-me alguns dos teus desvarios, principalmente porque sei que elles estão em contradicção com os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeição não é isso motivo. Para mim és n'esses momentos, como uma criança que se vê a dormir á beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos, e não cólera nem aversão.
E os dois rapazes abraçaram-se com effusão.